Um importante ensinamento da História, já fundamentado por Marx e Engels, é o de que o processo revolucionário de emancipação social e humana é irregular e acidentado, com avanços e recuos, vitórias e derrotas, tempos exaltantes de extraordinária intervenção e criatividade popular como os que conheceu a Revolução de Abril, ou de desorientação e desânimo como o que se seguiu ao desaparecimento da URSS e às derrotas do socialismo no Leste da Europa. Ter consciência de que é assim, e não linearmente, que em Portugal e no mundo se caminha em direcção ao socialismo e ao comunismo, é da maior importância para nem cair em triunfalismos que desarmam a vigilância de classe nos momentos de avanço e de vitória, nem nos momentos de insucesso e de derrota fraquejar na confiança na força invencível da luta organizada dos trabalhadores e dos povos. E para fazer frente, de cabeça bem erguida, à ideologia e às campanhas da classe dominante visando isolar e desarmar os comunistas e criminalizar o seu ideal, como uma vez mais se viu numa abjecta resolução do Parlamento Europeu que chega ao ponto de responsabilizar a URSS pelo desencadeamento da Segunda Guerra Mundial, ou na avassaladora campanha de falsificação da História que aí está a pretexto da chamada «queda do muro de Berlim».

É assim que não nos cansaremos de afirmar que a Revolução de Outubro foi o maior acontecimento revolucionário da nossa época e que o desaparecimento da URSS setenta anos depois da sua fundação, nem apaga as extraordinárias realizações do socialismo, nem a sua decisiva contribuição para as grandes transformações revolucionárias do século XX, sem esquecer os gigantescos sacrifícíos consentidos pelo povo soviético e o seu heróico Exército Vermelho para libertar a Humanidade do flagelo nazi-fascista. Não, não deixaremos que os falsificadores da História façam esquecer o que a Humanidade deve ao assalto aos céus pela classe operária e as massas camponesas da velha Rússia, nem o que o povo português deve à solidariedade do povo soviético na sua luta contra o fascismo e na sua Revolução libertadora, ou o que o PCP, criação do movimento operário português, deve ao extraordinário impacto internacional da revolução russa de 1917.

Sim, as derrotas do socialismo na viragem dos anos oitenta significaram uma contra-revolução de dimensão mundial, um gigantesco salto atrás no caminho do progresso social e do socialismo. Os povos têm estado sujeitos a uma brutal ofensiva exploradora, opressora e agressiva do grande capital. Mas trinta anos passados sobre a «queda do muro» se algo morreu não foi o comunismo mas o triunfalismo do «fim da história» e da vitória definitiva do capitalismo. O aprofundamento da crise do sistema com a agudização das suas contradições e o seu declínio no plano mundial é indisfarçável. É verdade que o imperialismo é ainda poderoso e prossegue na senda criminosa da agressão e de golpes de Estado, como na Bolívia. Mas por toda a parte cresce a resistência e a luta dos trabalhadores e dos povos mostrando que pelos caminhos mais diversos estão a germinar novos processos de transformação progressista e revolucionária.

in “Avante” a 14 de Novembro