Despertai!

Despertai vossos pés na terra que dá consistência,
no ar húmido e no frio que não entra na alma;
despertai vossas cabeças com toda a cósmica consciência,
em fábricas que são duras e em campos que não duram;
despertai esse mundo vasto e parado, sob a mortalha;
que não dá sentido a quem não sabe que caminho seguir
ou que, enganado, em estrada entrar; no fim da frase,
com a percepção da vida e da morte,
despertai a gente que sofre na tarde que desce,
duvidando-se se está viva ou morta.

Despertai, minha gente!

Aproxima teus dedos e agarra-me,
mesmo que eu me debata, fuja ou limite-me a cair no chão,
como crisálida do nada, do vazio,
na angustia do que nunca fui e podia ter sido.

Despertai-me!

Há sempre um despertar e uma palavra perdida para o dizer;
talvez na casa ao lado, talvez no patamar por onde passas.
Até um cão a fareja – como se a procurasse,
mesmo que alguém já a tivesse pisado e disso já não queira saber,
porque as palavras também servem para adormecer e cair ao chão;
«despertai» «amanhã», ou apenas «dormir»;
mas que seja uma igual a estas sem mais nem menos sentido,
como se uma palavra não custasse, por vezes, a dizer
e o acordar não custasse, por vezes, os olhos a abrir;
ou como se as palavras se pudessem deitar assim da boca para o chão,
ou como se o despertar de alguém, no meio do nada, viesse assim pelo ar.

8.11.2019
Álvaro Couto