A problemática da relação do homem com a natureza está desde a fundação do marxismo no primeiro plano das preocupações do movimento operário e do seu programa de emancipação social. O desenvolvimento do capitalismo com a intensificação da exploração do trabalho humano e a ilimitada predação da natureza tornou a luta em defesa do ambiente uma tarefa particularmente urgente e até dramática em várias regiões do planeta. E a questão das alterações climáticas, tornou-se um tema actualidade.

Entretanto é por demais evidente que em torno das questões ambientais há muito aproveitamento político oportunista, muito vedetismo, muita manipulação ideológica, muita instrumentalização política. Dos espectáculos de Al Gore ao cruzeiro da jovem sueca ou às «greves climáticas», assistimos a uma mediatização mundialmente articulada que, partindo de problemas reais, abusa particularmente da generosidade da juventude, e que confunde e assusta muito mais do que informa e esclarece. É cada vez mais claro que em torno desta questão se movimentam grandes interesses económicos e que, mais que uma genuína vontade de enfrentar reconhecidas situações de catástrofe ambiental (é ver a situação em que se encontra o Haiti quase dez anos após o trágico tremor de terra de 2010), o que espreitam são novas oportunidades de negócio e de rapina neocolonial.

Sim, as questões ambientais interessam-nos profundamente. Não há um mínimo de bem estar social lá onde o ambiente é hostil, onde a mão do homem destruiu o habitat e tornou inabitáveis regiões inteiras empurrando as suas populações para uma vida errante de miséria e sofrimento, para a emigração e o exílio que nem as mais altas muralhas jamais conseguirão suster. Sim, estamos preocupados, mas queremos que haja menos propaganda e mais informação objectiva sobre os concretos perigos que espreitam o nosso planeta, que o carácter científico de certos trabalhos não ofereça dúvidas que minem a sua credebilidade, que a comunicação social esclareça em lugar de, como tantas vezes acontece, gritar uma «emergência ambiental» que esconde outras emergências maiores como a emergência social ou a emergência nuclear que o sucessivo rasgar de acordos sobre desarmamento nuclear por parte dos EUA torna particularmente grave. Ou pior ainda, fazer como faz a Visão de 5.09.19: justificar com as alterações climáticas todos os males do mundo, da fome às guerras de agressão imperialistas, absolvendo o capitalismo das suas responsabilidades.

Estamos em vésperas da Cimeira da ONU sobre alterações climáticas. Não são de depositar grandes esperanças nos seus resultados, mas veremos. No mínimo seria desejável que não continuasse a dar cobertura ao maior dos embustes que ensombram o debate sobre as alterações climáticas: a desresponsabilização do capitalismo pelos desatres ambientais que percorrem o nosso planeta que são simultâneamente desastres sociais e humanos. O capitalismo é negro, não é verde. Não é casual que o Seminário «O Capitalismo Não é Verde» organizado pelo PCP no passado dia 13 de Setembro em Palmela com participação internacional tenha sido praticamente silenciado.

 

in “Avante” a 19 de Setembro