Em memória do Manuel Vinagre

Num último escrito, já chegado o Estio e após um mês de Julho em que dois ilustres arouquenses faleceram, o Manuel Vinagre e Elísio Azevedo, é justo deixar aqui umas palavras sobre uma qualidade (que ambos tinham, do primeiro conhecia a boa conversa, do segundo a boa escrita) cada vez menos apreciada nestes tempos, a sabedoria dos anciãos.

É certo que o que está a dar é o novo, o inovador, o criativo mas faço questão, também por isso, de aqui deixar um elogio ao velho, à experiência, ao clássico. A sabedoria humana, popular, foi sendo construída geração após geração fruto da experiência de vida de milhões de indivíduos e das comunidades onde eles estavam inseridos. Para um marxista a experiência individual e a experiência colectiva não podem ser dissociadas, estão imbricadas. Aliás, não por acaso, não comungamos a ideia liberal de que “o limite da minha liberdade termina onde começa a do outro”, não vemos os indivíduos como compartimentos estanques, os indivíduos interagem entre si e com a comunidade, a liberdade individual é uma relação com o colectivo onde se insere o indivíduo.

Voltando à sabedoria do vivido. O saber da experiência, dos indivíduos e das comunidades, é construído a partir da curiosidade, da capacidade de observação, de um questionamento permanente da realidade observada e da memória acumulada. É sobre estes alicerces que a acção assenta.

No caso dos indivíduos a experiência dos anos passados, das situações vividas, dos brilhantismos saboreados e das asneiras cometidas conferem serenidade e ponderação perante o que de novo surge, resultando numa enorme capacidade para não voltar a cair em erros velhos e revelhos, muitas vezes travestidos de novo.

Os 72 anos do Manuel Vinagre, o profundo conhecimento da vida, da sua serra, do seu Paiva, dos baldios, da pesca, da caça, das abelhas davam à conversa uma riqueza só comparável aos grandes livros, aos clássicos, aquilo que fica do tempo que passa. De muitas conversas havidas, em que tive o privilégio de o ouvir, fica uma, pelo teor e pelo espaço onde ocorreu, à mesa no Parque de Merendas de Meitriz, fez há pouco dois anos.

Permita-me a Violeta Parra o uso livre das suas intemporais palavras: Gracias a la vida que me (te) ha dado tanto (Manuel Vinagre)! Quem desejar, junte a música, está no youtube e tudo. Pode até ser com a voz da Joan Baez. Contudo, é melhor a versão da Mercedes Sosa ou a original com a Violeta Parra.

Arouca, 2019