Os motoristas de mercadorias querem um salário base digno, que lhes sejam pagas as horas extraordinárias e o tempo que são obrigados a passar no local de trabalho, querem a definição das suas funções e ver garantidas as refeições e o alojamento se deslocados. Não é um quadro reivindicativo muito complexo ou diferente do que querem os restantes trabalhadores.

O que no fundo os motoristas querem é poder trabalhar e ter, simultaneamente, uma vida digna. Isso só pode ser alcançado através da expropriação dos meios de produção e de uma outra organização social. Até lá, como todos os trabalhadores, serão explorados e viverão num clima permanente de precariedade e luta, mais ou menos acesa, onde a maior ou menor satisfação das suas reivindicações nascerá de processos que associem a luta organizada à negociação colectiva com o patronato.

É esse o caminho que prossegue o sindicalismo de classe, e é essa a maior dificuldade dos dias que correm, destes dias em que as justas aspirações de um conjunto de trabalhadores estão a ser usadas: por um arrivista para ganhar notoriedade, protagonismo e clientes; pelo Governo para ganhar votos, dramatizando, empolando e resolvendo uma crise; pelas varelas deste mundo para atacar o sindicalismo de classe, vender umas ilusões e semear o veneno anti-comunista e divisionista; pelos patrões para dividir e derrotar os trabalhadores, e manter o máximo nível de exploração; pelos reaccionários de todo o calibre (começando pelos do PS e indo até os mais liberais e modernaços) para tentar reduzir o direito à greve e enfraquecer a resistência e a luta.

É que amanhã, quando os pardais voarem para outro ninho, quando as varelas pularem para outra cátedra, quando o foco da comunicação social apontar noutra direcção, amanhã, vai ser mais difícil mas igualmente necessário organizarmos estes trabalhadores para a luta.

 

in “Avante” a 14 de Agosto