“Meu Deus, que Era sábia esta em que do horóscopo à bola é tudo ciência!”
Pensamentos de um pós-moderno fascinado

 

Jerónimo de Sousa interrogado sobre a chamada greve cirúrgica dos enfermeiros e o fundo de greve de subscrição pública criado para o efeito terá demonstrado pouca simpatia por este tipo de fundo e afirmado mesmo que a greve tem um lado de sacrifício para quem a faz. Tal ideia, também sublinhada por outros no espaço público, trouxe, imediatamente, Doutores em Ciência Política e em Ciência Sindical à polémica, defendendo o fundo de greve em causa e vertendo lições de História para cima da mesa – o sindicalismo nasceu assim, isto é um salutar retorno às associações mutualistas de trabalhadores. Postulado feito, postulado lavrado.

Pois, mas eu, sem predicados académicos em Ciência Política e em Ciência Sindical, recorrendo a um livrinho (Da Guerra), escrito em 1832 por um general prussiano de nome Karl Von Clausewitz, e à minha experiência sindical acho que o Jerónimo tem razão.

O tal general prussiano afirmava que a guerra é a continuação da política por meios violentos, portanto, a política será a continuação da guerra por meios não violentos. No mundo laboral os “meios violentos” são a luta laboral, os “meios não violentos” a negociação. O acordo entre partes é a paz laboral. Partes que são duas, o patrão e os trabalhadores, e desiguais, a primeira é mais forte (tem o capital) que a segunda (apenas tem a força de trabalho, que vende).

Já era assim no tempo das associações mutualistas de trabalhadores e é assim hoje no sector privado. Por isso, quando um trabalhador faz greve está a prejudicar o interesse do patrão para satisfazer o seu interesse, com o sacrifício de perder o salário (que é precisamente a razão pela qual é trabalhador). E a luta continua até que os trabalhadores cheguem a um acordo que os satisfaça ou claudiquem perante a força do patrão. Neste caso, a criação de fundos de greve entre trabalhadores, para aumentar a capacidade de resistência e conseguir o melhor acordo possível, é perfeitamente legítima. O recurso a fundos externos aos trabalhadores, com as devidas cautelas quanto à sua proveniência, desde que não coloque em causa a autonomia dos trabalhadores decidirem da sua luta, também será aceitável.

Só que, no caso em apreço, o mundo da Ciência Política e da Ciência Sindical, estranhamente, não reparou que no tempo das associações mutualistas de trabalhadores não existia um terceiro interesse em campo, um serviço público, da responsabilidade do Estado, fornecido aos cidadãos. Ora, com um serviço público da responsabilidade do Estado o terceiro interesse, o do cidadão, tem que ser considerado na arte da guerra.

E tem que ser considerado na arte da guerra porque, como referia em 1832 o Chefe do Estado-Maior dos Exércitos Prussianos e Director da Academia Militar de Berlim, o fim da guerra não é militar, mas político, em “sindicalês”, o fim da luta não é a luta, mas a reivindicação. Vai daí que, um trabalhador do Estado só consegue satisfazer a sua reivindicação com o cidadão ao seu lado. E isso só ocorre se conseguir fazer passar a ideia de que é no patrão, no Governo, que está a responsabilidade do conflito. Portanto, tem que ser clarinho como a água que não existem financiamentos externos à greve (com interesse na greve e estranhos à reivindicação), nem greves sem sacrifícios para os trabalhadores. Chama-se a isso procurar a superioridade moral sobre o contendor para ganhar o cidadão para a causa. Pode não ser tese de Ciência Política ou de Ciência Sindical, mas será orientação mais avisada, digo eu.

 

Francisco Gonçalves, sindicalista

Arouca, 19 de Fevereiro de 2019