Não bato no peito por ninguém, até prova em contrário.
Assim não venho, aqui, chorar nenhuma condição,
nem venho acudir a pessoas, vivas ou mortas, em premeditada oração.
Venho, apenas, em nome de gente e de um mundo sem véus,
lembrar-te, a ti e a mim, irmão,
que não nos devemos deixar cair em contramão,
sobretudo quando estão em causa vidas, pátrias, revoluções, 
pois sendo nós portugueses, tu e eu, nascidos em cagaréus,
martirizados pelas pampas e cicatrizados pelo vento,
experimentados estamos pelo sofrimento.

É sabido que, ao longo dos séculos, 
não encontrámos dentro dos muros da pátria, 
próximo de nossa casa e de seus quintais,
como por trás do rio de ramagem verde,
como por dentro de quadrados ou de rectângulos, 
como por debaixo de fados e de espigas,
sítio onde, como fogo,
gota de sangue ardesse.

Tudo isso é sabido, ou devia saber-se.
Eu venho lembrar, aqui, também a uns quantos santos e santas: 
Lembras-te, Europa? Lembras-te, ministro Augusto Santos Silva,
(já que o puto André Ventura não tem idade para isso),
o que, outros políticos, com outros nomes e apelidos,
antes da Venezuela, e noutros casos fora dela,
derramaram pelos ventos, em eleições ou em referendos?
Sim, tens presente o que dizes, ainda hoje, do Brexit,
ao longo do mar e de chuvosas ilhas?
Lembras-te do que disseste sobre a Catalunha, 
independente, desde sempre, de Barcelona até ao País Basco?
Recordas-te do que assinalaste como legitimo no assalto
ao poder nesse Brasil, metendo corrupção, prisões e assassinatos,
com essa corja forjada entre Trump’s, Moros e Bolsanaros?
Fazes sequer ideia do teu preconceito burguês, 
do teu medo, do teu pavor, das tuas dores,
contra vermelhos, contra coletes amarelos em Paris,
contra miúdos brancos, mestiços ou negros, 
que incendeiam autocarros e caixotes de lixo,
em Lisboa, Sintra, Setúbal ou em Loures!

Uuuuuuuh, que aí vem o mesmo medo, com os mesmos de sempre!

Sim, aquilo que fazes para aí assustar, no sossego da TV,
julgando que o que tu dizes é o que a gente vê,
como se todos nós, pecadores,
que, não sendo tubarões, como os santos e santas deste mundo,
que num dia consomem tudo,
e noutro dia voltam, querendo sempre mais,
não fossemos, afinal, toda a carne deste mundo.

 

Arouca, 31 de Janeiro de 2019