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Sempre que o PPD/PSD está afastado do poder, é fatal: regressa a geringonça (agora genuína), de novo em frenético esplendor, atulhando as televisões com directos e mobilizando o comentário nacional como se estivéssemos a discutir a invenção da roda. É um filme tão demasiadamente visto, que os opinadores deviam ter vergonha em o passar pela enésima vez. Mas não a têm, pelo que aí vemos de novo os «barões», as «facções», as «tendências» e (mais ocultas) as carreiras vividas na máquina do partido a degladiarem-se com fervor, à procura do norte que os conserve ou reaproxime do poder.

Foi assim desde o fundador Sá Carneiro, ele próprio protagonista de convocações de congresso sucessivas para levar a água ao seu moinho, transformando o PPD/PSD no recordista da realização destes eventos: 37 congressos em 44 anos de existência. É obra. E denuncia, candidamente, o rigor da expressão propalada pelo PSD de ser «um partido de poder», desarticulando-se de tal maneira quando lá não está que mostra, de facto, só existir para isso – o que confirma como balelas populistas todo o argumentário dos «humanismos cristãos» ou da «social-democracia», com que se arrasta o PSD na «época seca» das «travessias do deserto» da oposição.

Entretanto, o Presidente da República decidiu executar mais um acto insólito e sem precedentes ao encontrar-se num hotel do Porto com Rui Rio, presidente do PSD, em plena disputa interna deste partido, acrescentando-lhe outro encontro com Luís Montenegro, o desafiador de Rui Rio, no próprio Palácio de Belém. Não se percebe como Rebelo de Sousa se deixou associar à luta interna no PSD, sobretudo quando se esforça tanto para fazer do mandato presidencial uma espécie de deus ex machina da realidade política portuguesa, assumidamente equidistante e suprapartidário.

Haja o que houver ou resulte o que resultar desta nova contenda pêpêdê, uma coisa é certa: nada terá a ver com os interesses reais do País e dos portugueses, nada resultará em prol da «causa pública» com que este gente se asperge em ocasiões de aperto.

A prova está nos 44 anos de vida deste partido, nos 11 governos que produziu e que sempre foram piorando as condições sociais do País em cada nova tomada de posse, nos 7 primeiros-ministros que tomaram as rédeas do poder para semear autoritarismos e distribuir prebendas pelas hostes de apaniguados, enquanto conduziam as políticas de direita, em alternância com o PS, que têm tenazmente reposto o poder dos monopólios e da grande burguesia no País que a Revolução de Abril resgatou do fascismo, vai agora fazer 45 anos. E esta é a geringonça que nos atormenta quase desde então.

 

in “Avante” a 17 de Janeiro