A fechar o ano, algumas notícias trouxeram-me à memória o Relatório Mundial da Felicidade de 2018, da autoria da Rede de Soluções para o Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas. Para quem não se recorda, lembro que os três países mais felizes eram a Finlândia, Noruega e Dinamarca, logo seguidos pela Islândia, Suíça, Holanda, Canadá, Nova Zelândia, Suécia e Austrália. Países ricos, portanto.

Para medir a «felicidade» a ONU teve em conta factores como o Produto Interno Bruto per capita, esperança de vida saudável, apoio social, liberdade, generosidade e ausência de corrupção. Os resultados obtidos para os 156 países «medidos» foram curiosos. Vejamos: Portugal, por exemplo, passou do 89.º lugar que ocupava em 2017 para o 77.º, o que sendo um progresso significativo mesmo assim fica a milhas do México (24.º) ou do Brasil (28.º).

Para nos situarmos melhor nesta história cabe lembrar que no México são assassinadas diariamente nove mulheres e que, segundo a ONU, 41,3% das mexicanas foram vítimas de violência sexual. Quanto ao Brasil, o grupo dos 10% mais ricos concentra quase metade da renda do país; o número de pessoas em situação de extrema pobreza cresceu em 2017 com o golpista Temer, atingindo os 15,2 milhões (13,5 milhões em 2016), o que representa um crescimento de 13% e de quase dois milhões de pessoas num ano. O número de pobres passou de 52,8 milhões em 2016 (25,7% da população) para 54,8 milhões (26,5% da população) em 2017. Bolsonaro, na véspera de tomar posse como presidente, deixou claro que a sua preocupação é… combater o «lixo marxista» nas escolas brasileiras.

Se isto dá que pensar quanto à validade do ranking de felicidade, o que dizer então da Dinamarca, considerado o país mais feliz do mundo em três edições seguidas, até 2017, e que se mantém no pódio dos três mais «felizes». É que a Dinamarca, governada por uma coligação de centro-direita com o apoio da extrema-direita xenófoba do Partido Popular Dinamarquês, é aquele país que decidiu criar uma espécie de campo de concentração na pequena ilha de Lindholm (do tamanho de sete campos de futebol), para, entre outros, os imigrantes a quem foi negado asilo e que não possam ser deportados para o país de origem. O objectivo, disse o governo, é «manter a lei e a ordem», por acaso (?) o slogan eleitoral dos neonazis Democratas Suecos nas últimas eleições, em que se tornaram a terceira força política doutro país «feliz».

A ilha que vai acolher os «indesejados» tem actualmente um centro de pesquisa de doenças animais contagiosas, laboratórios, estábulos e crematórios. Um dos dois ferries que a ligam ao exterior é conhecido por «vírus». Não será o vírus da felicidade…

Quanto à lista, fica a pergunta: a quem serve?

Pensem nisso e façam o favor de ser felizes.

 

in “Avante!” a 3 de Janeiro