D. Quixote com alucinações

O debate público, político no seu sentido mais lato, tem vindo, pouco a pouco, a transformar-se em conversa de café. A comunicação faroleira, o registo agressivo, o recurso ao insulto, à sentença instantânea, a crença em soluções simples para problemas complexos ganharam adeptos. A má educação e a boçalidade tomaram conta do espaço público.

Ao mesmo tempo que se reclama da política e do político carroceiro que disputa e vai chegando às Chancelarias, o indivíduo e a portentosa sociedade civil dão exemplo … fazendo o mesmo no espaço público (nas antenas abertas, no comentário ao noticiado, nas redes sociais, na blogosfera). A santa trindade da conversa da treta (fanfarronice, superficialidade e vulgaridade) instalou-se.

A fanfarronice lembra o camiliano tenente-coronel Cerveira Lobo, cuja coragem subia à medida que esvaziava a garrafa de genebra. Quando a coragem atingia o climax, sempre que chegava ao fundo da garrafa, saía a cavalo, bramindo espada, campos fora, qual Quixote, matando “Malhados” imaginários, a “Brigada Vermelha” desses tempos miguelistas.

A superficialidade é marca deste tempo. A rapidez, as tecnologias da informação e comunicação, a multiplicidade de estímulos visuais dominam o quotidiano. Comportam potencialidades mas, também, perigos. Não é possível em matérias complexas, e as relações sociais são complexas, fazer análises rápidas em frase bombástica. Não há  inovação que permita meter num MEME “A República” de Platão.

A fuga à vulgaridade, à infantilidade, deve ser um desígnio do humano, particularmente no espaço público. Acreditar no Pai Natal pertence ao universo do “Fantástico e do Maravilhoso”, muito importante na Educação e na Literatura de Infância e Juventude, mas é desajustado à idade adulta. É verdade que a História nos mostra que, por vezes, os adultos vão atrás destas coisas. Aliás, o Mein Kampf arrastou a nação mais culta da Europa. Um livro que mais não é do que a historieta de vida de um jovem austríaco, incrustada dos desígnios da Grande Alemanha e regado com carradas de ódio e com a humilhação alemã trazida pelo Tratado de Versalhes, já nos devia deixar de orelhas moucas a estes cantos de sereia.

É normal e salutar o debate entre perspectivas filosóficas e políticas antagónicas, particularmente na clássica oposição direita/esquerda. Mas o debate público entre direita e esquerda obriga-nos a não transformar a conversação no espaço público em conversa da treta e mais ainda a rejeitar sementeiras de ódio e violência.

Há uns anos um camarada dizia-me que se, por um qualquer cataclismo, todos os livros desaparecessem da face da Terra um era obrigatório conservar, pois está lá tudo sobre a condição humana. Numa velha edição desse livro, lê-se na contracapa, da introdução de Cascais Franco, sobre a glória humana – “Glória solitária a de Aquiles, que se vota à sua própria destruição. Glória fraterna como a de Heitor, que se sacrifica pela sua comunidade.” 

Esta distinção primeira entre esquerda e direita, apesar de trágica, à semelhança da nossa precária existência, não nos remete para a vulgaridade, para a foleirice, bem pelo contrário.

 

Arouca, 12 de Novembro