Faixa da Manifestação contra a Corrupção em frente à Assembleia da República, Outono de 2018

Abriu a época da caça ao herói que precisamos. Assume-se, aqui e acolá, que faltam lideranças,  sebastiões, salvadores pátrios. Estrelas mediáticas são promovidas a heróis imaginários, há uma fé inabalável na sua capacidade de resolver os problemas do mundo. Ideia juvenil, tão só, sinal da demissão (individual e colectiva) dos humanos na procura de soluções  para os problemas do seu tempo. Tal como a economia de mercado deu lugar à sociedade de mercado o consumidor tomou o lugar do cidadão. A prática parece estar a dar razão à ideia avançada, em 1944, pelo filósofo húngaro Karl Polanyi, de que a economia de mercado auto-regulada tende a transformar-se de meio em fim.

Alimentados pelos  casos Silvano que vão aparecendo,  parece confortar os comuns mortais a crença que vivemos num  mundo íntegro de cidadãos exemplares, apenas tolhido pela bandidagem e corrupção, centrada na política e nos políticos, sendo o Parlamento o antro, a origem do mal. Portanto, falta só um herói, “firme e hirto”, que endireite as coisas e depois a vida fluirá harmoniosamente.

Assim, resolvi dedicar-me, como os demais, à busca do herói imprescindível. Comecei por afastar os quatro nomes propostos como “remédio” são teóricos e não operacionais, logo não têm o nervo exigido para a tarefa. De seguida eliminei, também, sem apelo nem agravo, o Pai Natal, é só presentes e beijinhos, e o que o país precisa é de um espírito obstinado que, à paulada, ponha tudo nos eixos. Ao fim de aturada busca, dois nomes impuseram-se, o inspector Harry  Callahan e o coronel James Braddock, dois tesos implacáveis, invejados por eles e amados por elas.

O primeiro, um justiceiro sisudo, inimigo feroz da bandidagem, que a tibieza liberal de S. Francisco, muito dada às causas fraturantes, deixa medrar impunemente. O segundo, igualmente reaça e trombudo, metralha com resiliência, nas selvas da Indochina, bárbaros comunas. Analisando ambos com mais   detalhe tive de afastar o Dirty Harry, é, apesar de tudo, uma personagem com alguma densidade, com dúvidas e complexidades, o que não condiz com as modas do tempo.

Optei pelo outro, mais de acordo com a época que vivemos – é básico, tem uma barba à hipster, uns peitorais salientes, uns abdominais definidos, um bom jogo de pernas e uma rotativa de belo efeito. Assim, proponho o Chuck Norris. É o homem que Portugal precisa! Disse.

 

Arouca, 5 de Novembro de 2018