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(a José Saramago)

 

CEGO, lendo teu ensaio nobel,
vi entretanto, que nada de novel,
vivo ou morto, me pode ajudar
e que nada, de novo, posso esperar,
pois, entre mortos e vivos, não se ama ninguém,
já que em sombras todos calaram sua voz,
ou se afastaram, de vez, de nós.
Raízes de corpos, que uma vez nos viveram,
e que, em silêncio, se fizeram entretanto esfumar.

Porém, nesse mesmo teu texto,
passado entre caixões e suas tábuas,
que nos enche de abulia até ao desprezo,
convertendo-nos ao frio das estátuas,
fechados em ruídos, entre paredes azedas de tristeza,
condenados que estamos, sós e ignorados, à incerteza,
ante o vazio da vertigem que nos seca,
ou o pouco sangue que nos interroga,
sempre existe tua VOZ que , aqui e agora,
ainda assim permanece furiosa.

Arouca, 29 de Outubro de 2018