Elvira vive em Rossas, numa casa junto ao rio,
e há muitos anos que é professora de Francês,
na única escola que existe em Arouca.
Um dia destes, de tanto sossego ficando farta,
meteu-se num autocarro a caminho de Lisboa.
Pela primeira vez na vida, em docente companhia,
Elvira à estrada do protesto se fazia.
Se fosse há uns anos, Elvira diria que só podia estar louca,
«Change les temps, change les volontés: ainsi, porquoi pas?» .
Os colegas de escola estranham, depois entranham, e então perguntam:
«Elvira, vais também à manifestação dos professores?»
«Je ne sais pas! J’y va arriére vous et toutes les autres!».
E é assim, apenas acompanhada por homens,
facto que neste meio já é raro,
atrás de fila de carros na auto-estrada,
quase todos em direcção a Faro,
que Elvira faz a sua estreia numa manifestação.

Demorada viagem, num calor de estopada,
dentro de autocarro, que mal chega à capital,
avaria numa avenida e ali se fica imóvel.
Elvira, entretanto enjoada, quase vomita entre aflitos:
o motorista jura que só pode ser dos filtros,
os passageiros apostam que é falta de gasóleo.
Porém, há males que vêm por bem;
com a tasca do Costa ali tão perto,
e nunca, Elvira, tendo andado de metro
(«oui, même jamais, même jamais, oui»),
junta-se aos homens e arranca para o almoço,
por entre estações de comboio, cheias de pinturas rupestres,
e bacalhau e vinho à moda de um Minho rústico e campestre
(Ah, mais c’est joli, ahn! Plus disant: cá c’est même trés bon, ahn!»).
Limpos os pratos e iniciada a digestão
à mesma hora da partida da manifestação,
Elvira segue atrás das bandeiras,
mas tendo Tadeu como cicerone,
entra em fugazes procissões por ruelas e ladeiras;
Ali, temos o castelo de S. Jorge;
ao fundo, a casa dos Bicos, além, o Rossio:
«e, porque não aí, molharmos o bico?»;
Elvira não está habituada, mas não dá parte fraca;
aguenta mais uma ginja, e já Tadeu ginga
para a calçada da Praça da Figueira,
onde com o pé apontado em biqueira,
dá a ver, o que ele diz ser,
o fóssil de uma navalheira
«Extraordinaire! Absolutment, extraordinaire!».
Apareceu depois brasúca, espichando chapéu e calça branca,
tropeça em Tadeu que, entretanto, também não o vê,
e vá os dois no chão caindo, logo Tadeu para ele avança:
«O amigo é pêtista ou apenas esqueleto desamparado?»
«Não, sou o chefe da UGT e devo tudo ao Ricardo Salgado!»

E, nesta conversa, lá se foi a cauda da manifestação;
e, com isso, lá ficou por ouvir o discurso do Nogueira;
mas a luta continua, e já no regresso final, ninguém desiste,
com todos prontos para o que der e vier:
combalido Álvaro que ainda assim resiste,
pois se a sua progressão não vier, o governo mete em tribunal ,
mesmo Óscar que, não havendo por agora condições, dorme à maneira,
até à Elvira que, suspirando enfim, já nada a detém:
– «Amis et camarades, je suis amoreuse de Lisbonne! À la prochaine!»

 

 

Arouca, 7 de Outubro de 2018