Ouvir um concerto de música sinfónica na Festa está muito além do prazer estético que proporciona. Tem que ser entendido na sua dimensão activa, utilitária e criadora da vida.

Alexandre Weffort esclarece num texto que escreveu sobre o concerto de abertura da Festa, bastante interessante pelas questões que coloca nas realções de Marx com as artes, que: «O programa da noite sinfónica da Festa do Avante! deste ano procura assinalar o II centenário do nascimento de Karl Marx.

Propósito ilustrativo fácil de formular mas difícil de conseguir, visto não haver na sua obra ou na biografia referências explícitas nesse âmbito, embora seja possível assinalar uma ou outra referência à música. E são inclusivamente referências importantes para a elucidação do seu pensamento teórico mais geral.» 

Esse texto explicativo sobre o tema do concerto e as notas sobre cada uma das composições é um excelente guia para a sua audição. De facto, o interesse de Marx pelas artes e a literatura, sem nunca ter produzido uma obra teórica autónoma nessas áreas, está presente na sua obra.

As referências incidem sobretudo na literatura o que é explicável pela circulação das artes no seu tempo. Não podia ser isso um impedimento para que no concerto sinfónico de abertura da 26.ª edição da Festa do Avante! não se comemorasse o Bicentenário de Marx com um Concerto em Louvor do Homem, homem que, como refere o revolucionário pensador nos Manuscritos Económico-Filosóficos, se afirma no mundo objectivo «não apenas pelo pensamento, mas através de todos os sentidos».

É a arte que permite que o homem se afirme na plenitude dos seus sentidos enquanto fecundo espaço para o trabalho sobre o pensamento, sendo um espaço de trabalho inteiramente específico e autónomo, uma forma superior da actividade prática que é um reflexo das relações sociais e da evolução da história «que não é outra coisa senão a produção do homem pelo trabalho humano». (Manuscritos Económico-Filosóficos)

Seleccionar um programa musical com esse propósito expresso não é fácil, como não é fácil alinhar um programa de música sinfónica para aquele espaço e para aquele público, pelo que se deve sempre efusivamente saudar a opção pelo concerto de abertura da Festa do Avante! ser preenchido com aquele género de música. 

Na música sinfónica muitas são obras em que, de modo directo ou indirecto, o homem ou a mulher, que é o que está subjacente no subtítulo do concerto, é celebrado. Uma dos trechos musicais eleitos é quase óbvio, o 4.º andamento da Nona Sinfonia de Beethoven, conhecido como Hino à Alegria, em que é cantado um poema de Schiller, a exaltação em música e texto dos ideais da fraternidade.

Ouvi-lo na Festa do Avante!, no contexto em que é apresentado, é resgatá-lo à apoderação que os dirigentes europeus fizeram apropriando-se da música de Beethoven, limpando-a do poema de Schiller, para a elegerem como hino europeu.

O que diria Beethoven? Provavelmente esfregar-lhe-ia na cara a pauta original, espezinhando os arranjos de Karajan, com o mesmo furor com que alterou a dedicatória da 3.ª Sinfonia, originalmente dedicada a Napoleão, quando percebeu os desígnios do recém-imperador e a traição aos ideais da Revolução Francesa.

Duas outras também são perfeitamente lógicas. Uma A Fanfarra para o Homem Comum, de Aaron Copland,  obra musical com pouco mais de três minutos para metais e percussão, celebrando os homens comuns que lutavam na rectaguarda e na frente de batalha contra a barbárie nazi. Uma poderosa miniatura musical que seria base e ponto de partida para a sua 3.ª Sinfonia.

A outra são as Danças Sinfónicas de West Side Story, de Leonard Bernstein, de que se comemora o centenário este ano. A completar o programa a Abertura de A Midsummer Night’s Dream, de Mendelssohn, e a Fantasia sinfónica segundo Dante, Francesca de Rimini, de Tchaikovsky, dois compositores contemporâneos de Marx e que as escreveram sobre textos respectivamente de Shaskepeare e de Dante, por ele referidos.

A interpretação, como tem acontecido nos últimos anos, esteve a cargo da Orquestra Sinfonieta de Lisboa, com a direcção de Vasco Pearce de Azevedo e, no Hino à Alegria,  o Coro Sinfónico Lisboa Cantat, direcção Jorge Alves e os solistas Carla Simões, soprano, Cátia Moreso, meio-soprano, Nuno Araújo Pereira, barítono e Pedro Rodrigues tenor.

Comecemos pelo 4.º andamento da Nona Sinfonia. Uma obra exigente, como toda a sinfonia. São muitas as interpretações que colocam esta obra prima de Beethoven a níveis de excelência, mesmo quando exageram nos tempos lentos e numa densidade orquestral quase romântica, excessos a que alguns notáveis maestros como Karajan ou Solti não se furtam.

Outros procuram interpretá-la de forma mais clara, «historicamente informada», como Scherchen, Erich Kleiber ou Toscanini, este sempre com a impetuosidade que o caracterizava.

Gunther Wand, com a orquestra de Güzenich de Colónia, procura, com instrumentos modernos, cumprir todas as indicações metronómicas de Beethoven o que mais tarde, num projecto algo «arqueológico», também fará Jos van Immerseel com a Anima Eterna.

Muitos outros notabilíssimos maestros, como Walter, Krips, Reiner, têm óptimas interpretações das sinfonias de Beethoven, mas em relação à Nona Sinfonia, num patamar dificilmente ultrapassável, está a dirigida por Wilhelm Furtwängler em 1951, com o coro e orquestra do Festival de Bayreuth e um naipe de solistas de excepção, em que de algum modo exorciza mas também exalta a que tinha dirigido em Berlim em 1942, com o coro e orquestra da Filarmónica de Berlim em circunstâncias e contextos deploráveis.

Pareceu-nos, talvez estejamos a ser injustos, que a que se ouviu no Palco 25 de Abril da Festa do Avante! fica num meio caminho entre as interpretações de maior acento romântico e as mais próximas do rigor de Wand.

Há e haverá sempre uma enorme diferença; a de ser tocada numa sala de concerto e de ser tocada ao ar livre com interferências sonoras, este ano bem mais controladas, e metereológicas, que não são desprezíveis, o que faz sublinhar que ouvir um concerto de música sinfónica na Festa está muito além do prazer estético que proporciona.

Tem que ser entendido na sua dimensão activa, utilitária e criadora da vida. Todas as falhas e as deficiências que se poderiam apontar têm que ser avaliadas nessa perspectiva e é a compreensão dessa dimensão que os maestros Vasco Pearce de Azevedo e  Jorge Alves transmitem na direcção da orquestra e do coro, bem expressa no desempenho dos instrumentistas e dos cantores.

A interpretação do Hino à Alegria foi rigorosa e se tanto a orquestra como o coro são mais modestos dos que acima referimos, o seu ardor, o seu empenhamento em grande empatia com os milhares de espectadores que se aglomeravam frente ao Palco 25 de Abril, abrem todas as portas para se entrar na superlativa genialidade de Beethoven. É, no entanto, de toda a justiça salientar o desempenho irrepreensível do coro. 

Dos outros trechos musicais os destaques vão para A Fanfarra para o Homem Comum, de Aaron Copland, e as Danças Sinfónicas de West Side Story, de Leonard Bernstein, em que a clareza sonora facilitada pela escrita dos compositores catalisou a relação entre o público e os interpretes e foi evidente essa interacção.

Francesca de Rimini de Tchaikovsky e a Abertura Midsummer Night’s Dream de Mendelssohn são desse ponto de vista mais complexas. Ambas têm impressivos efeitos musicais e cromáticos que acentuam o seu carácter romântico mas que não são nada favorecidos pelas condições em que aqui são executadas, pelo que se percebe a opção pelos tempos e pela tónica colocada nalguns momentos para melhor explicitar as intenções dos compositores. 

Mais uma vez, um bom concerto com uma selecção bem pensada e bem executada, com um formato já com anos de experiência, o que não exclui que seja reformulado para que o êxito e impacto alcançados se prolongue nas futuras edições da Festa do Avante!.

in “AbrilAbril” a 8 de Setembro