O INE, divulgou, há alguns dias, informação desagregada que permite confirmar que a economia portuguesa há oito trimestres consecutivos cresce acima de 2%, situação que não se verificava desde final do século passado.

Pode afirmar-se que 2018 registou no segundo trimestre do ano um bom ritmo de crescimento na actividade económica, superando o ritmo do primeiro trimestre do ano, o que é indissociável da nova fase da vida política nacional, iniciada com o afastamento do PSD e CDS-PP do Governo e das políticas que tem sido, desde então, possível prosseguir, de devolução de rendimentos a trabalhadores, pensionistas e reformados, de melhoria nos apoios sociais, de subida contínua do salário mínimo, de redução da carga fiscal sobre os rendimentos do trabalho, interrompendo-se um longo período de recessão e estagnação da nossa economia e colocando-se o país a crescer a um ritmo anual um pouco acima dos 2% ao ano. O crescimento do consumo das famílias e o seu impacto na melhoria do investimento impulsionaram a aceleração da actividade económica, com forte impacto quer na procura interna, quer na procura externa.

Assinale-se no entanto que a procura externa líquida tem, nos últimos quatro trimestres, tido contributo negativo para o crescimento do PIB como resultado de um ritmo de crescimento em volume das importações superior ao das exportações.

Os resultados agora obtidos devem no entanto ser avaliados com alguma cautela, não apenas porque o PIB do nosso país em termos reais se encontra ao nível de 2008 (10 anos atrás), enquanto o investimento está ainda ao nível de 1997 (21 anos atrás), o que facilita a subida em termos homólogos, mas também porque, dado o grau da destruição do nosso aparelho produtivo, a desejável aceleração da procura interna, por via do consumo e do investimento, e o aumento das importações, estão inevitavelmente a conduzir ao novo desequilíbrio da nossa balança corrente.

Dias depois da divulgação destes dados pelo INE, Rui Rio veio dizer na festa do Pontal, que o crescimento que tem vindo a ser registado no nosso país é «negativo» porque, considera ele, a nossa economia tem de crescer pelas exportações e pelo investimento e não pelo consumo privado. A preocupação dele não é, no entanto, com a falta de resposta do nosso aparelho produtivo às nossas necessidades da procura.

A preocupação dele é outra e é recorrente na direita portuguesa que, sempre que o crescimento se apoia na procura interna e em particular no consumo privado, o diaboliza; e quando se apoia nas exportações e no investimento, o santifica.

Este tipo de afirmação é de um enorme simplismo e é definidora do pensamento de direita no nosso país, pois trata da mesma forma consumo de produtos supérfluos e consumo de produtos essenciais ao bem-estar das nossas famílias, e subalterniza a importância que a capacidade de consumo de milhões de portugueses tem na actividade económica do país e directamente no investimento.

A direita e os seus ideólogos sabem que o crescimento sustentado do consumo privado, implica o fim das políticas de desvalorização do trabalho e dos trabalhadores, que tiveram um efeito devastador nas condições de vida de milhões de portugueses, em especial com o anterior governo PSD/CDS e as políticas da troika, e exige o prosseguimento de políticas de melhoria de distribuição do rendimento, seja através de aumentos de salários e pensões, do aumento do salário mínimo, da redução da carga fiscal sobre o trabalho ou dos apoios sociais às famílias e por tudo isso, essa mesma direita não se cansa de diabolizar o crescimento do consumo.

Como costumo dizer, eles defendem o aumento do poder de compra dos consumidores desde que não lhes vão ao bolso e, por isso mesmo, desde que esses consumidores não sejam as famílias portuguesas, mas antes as famílias espanholas, francesas, alemãs, holandesas, italianas e inglesas, que constituem os nossos principais mercados de exportação.

Suprema hipocrisia!

 

in “AbrilAbril”