Do meu barco ouço, um dia, alguém cantar.
A voz chega-me aos ouvidos, devagar,
com veias de leite e seios a arfar,
como pão quente, numa canção de embalar.

Na balsa cheia, com a luz sem luz, sem céu o céu,
com o mar agitado, em seu branco véu,
com uma criança ao colo, dormindo de corpo ao léu,
mãe negra canta, com gaivotas saindo debaixo de seu chapéu:

«Fugi na água fria do tempo
sem olhar para o que deixava;
Incendiou-me o pensamento
na fonte de uma ribeira brava».

Sua pele é incêndio, mel, âmbar.
Seus cabelos caem em tranças,
com todas as cores em fitas de enfeitar,
e ainda um cheirinho a laranjas.

Todos os ventos agitam sua viagem.
De terra não vem nenhuma aragem.
No horizonte corre apenas mar na paisagem,
e só essa voz nasce da sua margem:

«Fugi na água fria do tempo
sem olhar para o que deixava;
Incendiou-me o pensamento
na fonte de uma ribeira brava».

Mas o mundo dorme, e não a espera.
Talvez não passe o nevoeiro que o cobre.
Pode ser que a balsa não passe de era.
Talvez não prolongue mesmo a sua sorte.

Mas, amanhã, sua criança acorda,
e talvez, então, esta se lembre,
qual a canção que liberta a corda,
onde todo o silêncio se vence:

«Fugi na água fria do tempo
sem olhar para o que deixava;
Incendiou-me o pensamento
na fonte de uma ribeira brava».

 

Arouca, 23 de Julho de 2018
Álvaro Couto