A casa, onde se reúne o núcleo duro dos meus camaradas,
é como uma célula gigante . . . com o mundo inteiro lá dentro:
No andar de cima, na porta à direita, vive o jovem homossexual
que toma conta dos gatos e da mãe, longa viúva, que sofre de insónia delirante,
e no número ao lado, vive uma jovem amorosa que está grávida só há cinco horas,
e que, por isso, está proibida de passar para lá do jardim das traseiras,
o qual é frequentado apenas pelos gatos roucos que a olham em trevas,
ao contrário dos animais selvagens do jardim zoológico em frente,
que fornicam directamente como um colar de palpitantes ostras sexuais,
mesmo diante de outros animais propriamente dito racionais,
já que que obedecem a todas as ordens escritas nas tabuletas do zoo.

A radiante manhã acorda os meus camaradas do sono e dos sonhos,
apenas feitos, por agora, em altos e baixos, magros e gordos, novos e velhos,
e é só ao nível do rés do chão que o dia se abre mais dialéctico:
o modesto iraniano do Kebab, depois de muito tempo do tédio semanal,
a ver só telenovelas brasileiras dobradas em árabe,
finalmente seduziu a vizinha do 3º esq.,
e marca presença, agora, em todos os salões de baile da cidade,
onde ele, príncipe apaixonado, acaricia as pernas de macia penugem da dama,
com as mãos húmidas e ardentes, que cheiram a gordura de borrego;
o cangalheiro da agência funerária, que anda com o seu negócio pelas horas da morte, anuncia na vitrina: “Funerais a preços de saldo! Aproveite e encomende já o seu!”, por entre cristos pregados na cruz e imagens de santas virgens,
e há, ainda, a loja que virou em igreja de uma seita evangélica
e que recebe fiéis que se abraçam uns aos outros e que se masturbam,
e, igualmente, o alfarrabista que vende livros baratos, mais ou menos famosos,
mas como sempre famosamente fechados,
e há, mais ainda, a rua que é toda uma outra vida feita de calças e de saias,
e de brilhantinas, perfumes e meias de seda,
e de seios femininos que os olhos dos homens chupam como guloseimas,
e de prostitutas e de adúlteros que, entre carícias e beijos, combinam preços
na paragem do autocarro, feito embarcação até aos quartos baratos da pensão.

E as horas após o almoço, quando os animais do zoo já cheiram a sangue,
e as moscas zumbem coléricas, e as baratas corroem furiosas os tabiques das casas,
e os pais de família que compram a primeira, segunda e até a terceira raspadinha,
e que, à excepção do manco que vive na rua e que é roupeiro no Sporting,
rumam então até ao estádio da Luz para gritar pelo Benfica
e para chamar nomes a um árbitro incógnito e masoquista,
e os primos que, aproveitando a ocasião, brincam estranhamente com as primas,
e os quatro gandins que passam as tardes na tasca da esquina,
e que se disputam entre si, lançando sobre a mesa do costume:
cartas, álcool, heroína, infelicidade e o produto do assalto da noite anterior,

E o dia entardece, e no seio dos meus camaradas outra dialéctica se estabelece:
e um camarada do sector agrícola propõe acções de massas,
nomeadamente aos portões das fábricas e das empresas situadas em serranias,
desde Montejunto até à Gralheira, passando pela serra da Estrela,
ao mesmo tempo que outro camarada, este do sector intelectual,
desesperado e irritado com tanta mosca e barata pela casa,
desembainha uma faca de cozinha e assusta o primeiro,
que foge escadas abaixo, para se lançar, a chorar,
nos braços do jovem do andar de baixo,
mas o intectual, como por descuido, tropeça sob a fronte do barbudo Marx,
e precipita-se em cima de um camarada operário que está a ressacar no sofá,
depois de ter participado numa iniciativa conjunta CGTP e da Junta de Freguesia local,
em que andou a distribuir cravos numa praia lá para as bandas da Costa da Caparica,
onde se deparou com uma simpática turista, recém-chegada do Afeganistão,
que, entretanto, encontrando-se deitada ao sol, tal como Deus a trouxe a este mundo,
não se esquece de lhe agradecer tal gesto solidário com um beijo e uma ganza xiita,
ao que o camarada se sentiu na obrigação de aceitar em nome
da luta, da liberdade, da solidariedade internacional e da fraternidade entre os povos,
o que o deixou assim no estado em que ainda hoje se encontra.

E a noite acontece, e com ela chegam, silenciosamente, os desalojados deste mundo,
alemães, italianos, holandeses, brasileiros, chineses,
e sabe-se lá quem mais e que trabalham agora em callcenter´s,
e que passam assim os dias a falar, a falar . . . para o cu do mundo,
e é neste magnífico universo respiratório
que certamente, eternamente nos rodeia
que, de súbito, me saltam à cabeça as palavras de Torga:
«O universal é todo o lugar sem paredes»,
mas, no entanto, como dizia mestre Neruda:
«com bocas e dentaduras e negras raízes em forma de unhas e sapatos».

 

Álvaro Couto