Meus queridos e broncos conterrâneos (imitando Aquilino):
O porco engordou para além
das expectativas. A pança ultrapassa
o curral, o focinho parece subir
pelas paredes do voto. No quintal,
os outros animais sobrevivem, apenas, em canteiros.
Não se sabe, sequer, o tamanho
deste porco. Ao princípio, foi um pequeno
leitão indesejado pela maioria. Mas cresceu e engordou.
Por algum tempo, acolhemo-lo, alimentámo-lo e, até,
o protegemos dos dentes predadores de outros animais
que existem no quintal. Por fim, a sua gula tornou-se
obstinação, que se agarrou ao curral e,
agora, ao quintal. Alguém diz: “Este
porco há-de assegurar o nosso sustento!
Para nosso governo somos todos porco!” E mesmo
que não seja assim, ele
ganhou essa qualidade. Já não é fácil
desalojá-lo, como se morasse aqui
desde sempre. E de cada vez
que se entra no quintal, a sua presença
impõe algumas regras, como se nas suas patas
se impusessem antigos instintos de má memória,
e essa memória nos falasse de uma pobre existência
que teima em manter-se.
Assim, meus caros, está na hora da matança do porco!

Á. e G. Couto

22 de Abril de 2018