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Na mitologia antiga encontramos a intemporal  luta do humano em superar a besta que há em si e a incessante busca para a saída do(s) labirinto(s) da vida. Ao longo dos tempos, por vezes, a humanidade deixou agigantar dentro de si essa besta, perdeu-se no labirinto e achou-se sem  fio para a conduzir à saída. Da história vem a tese que, em tempos de decadência de impérios e ideias, o rasto do fio (de Ariadne) tende a desaparecer.

Olhando o curso dos dias, no mundo e no tempo que corre, lendo, vendo e ouvindo o noticiado ficamos com a impressão de ser época assim a actual. A loucura parece ter-se  instalado nas chancelarias, nos tribunais e nas urnas. Alguns exemplos:

SÍRIA – O chamado mundo ocidental, o outro nome dado às potências capitalistas (EUA, Reino Unido, França…), sobe a parada e cria o ambiente para uma intervenção militar na Síria. Já vimos isto na Jugoslávia, no Iraque e na Líbia. A diferença, na Síria, é que há tropas russas estacionadas. Ora, a Rússia não é a Jugoslávia, o Iraque, a Líbia ou até, se quisermos, o Irão, tem pistolas grandes, faz parte da Europa, chega ao estreito de Bering e vai do Ártico aos mares do sul.

BRASIL – O sistema judicial entrou na luta política, não por condenar políticos (não estão acima da lei, são cidadãos como os outros), mas pelo processo que vem desde a destituição política de uma presidente eleita, sem qualquer acusação ou condenação mas com recurso a “razões judiciais”, pelo discurso e híper-celeridade dado a uns processos em detrimento do tratamento e  híper-arrastamento de outros, sem que se perceba critérios mais que não políticos. Emergem justiceiros, na primeira fila magistrados pop stars, na penumbra botas cardadas.

ESPANHA – Na questão da “Independência da Catalunha” assistimos a uma Justiça a mando do Poder Político, constitucionalmente consagrada, ainda refém do fascismo (Franquismo) e da luta contra a ETA. Para alguns deslumbrados pela transição espanhola, contrapondo-a à Revolução Portuguesa, talvez seja  matéria de reflexão. Para os anais da história fica a ascensão do Referendo, na Lei espanhola sinónimo de Rebelião, à categoria de Técnica de Golpe de Estado.  

EUROPA – Cada eleição que passa, da França à Austria, da Polónia à Hungria, da meridional Itália à setentrional Finlândia, cresce o peso e influência da extrema direita, de partidos muito etnocêntricos com laivos fascistas ou, em alternativa, de partidos mesmo fascistas com retoques etnocêntricos. Entretanto, vão governando, como se nada se passasse, tornando mais ricos os ricos e mais pobres os pobres, os partidos populares e o que vai restando da social-democracia. A causa de tais resultados eleitorais, segundo dizem, é o facebook, não a vida das pessoas e a falta de esperança no futuro, o tal labirinto, onde o minotauro vai crescendo.

Corria o ano de 1984, em Cnossos, Creta, um velho sábio, já cego e no ocaso dos seus dias, ditava à sua companheira, Maria Kodama, que escrevia: “O fio perdeu-se, o labirinto perdeu-se também. Agora nem mesmo sabemos se nos rodeia um labirinto, um secreto cosmos ou um caos imponderável. O nosso mais grato dever é imaginar que há um labirinto e um fio. Nunca daremos com o fio; talvez o encontremos e o percamos num acto de fé, numa cadência, num sonho, nas palavras que se chamam filosofia ou na mera e simples felicidade.”

Talvez a luta por um mundo melhor possa ser o fio, o caminho para a saída do labirinto, não num sentido idealista, mas no seu sentido material concreto – é possível ter um mundo melhor do que o de ontem ou o de hoje. Isso só depende de nós, humanos.

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Arouca, 22 de Abril

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