Etiquetas

, ,

Só os incapazes ou os idiotas, arrastando-se ao longo dos anos
na auto-satisfação das suas miseráveis narrativas,
não perceberam que o fim da economia é o fim do sistema de exploração.
Assim, o fim do sistema mercantil passa inevitavelmente pela crítica da economia;
passa, pois, pela compreensão da obra de Marx,
mesmo que marcada pelas limitações da época. Marx,
que nunca foi marxista e, muito menos, economista,
e que, em boa hora, se libertou tanto da religião como da poesia,
para nos estabelecer a dialéctica hegeliana por inteiro e as leis da economia pelo certo,
não deixou também de arrumar a velha questão de Adão, enquanto primeiro Indivíduo:
«Pela economia se resolve a sociedade, porém o Homem não se resolve só pela economia!»
Pudesse, a economia, esconjurar todos os nomes humanos,
descê-los dos seus terríveis ninhos,
fazendo o mundo compreensível, afável, livre de qualquer aversão
húmida que dirige do centro do seu lodo,
de modo a que se despregasse, sem tréguas nem quietude, o coro das suas sombras;
tivesse, a economia, o brio, a fé de nos resgatar
e a capacidade de nos moldar o espesso carácter,
de modo a que o medo se transformasse em audácia
de romper a negação do instinto da própria sobrevivência animal
e o ódio mineral em que este, até por dinheiros, está cada vez mais cativo;
se ousasse, ainda a economia, contemplar frente a frente cada um dos homens,
ouvi-los em sossego, estar nos seus corações
e averiguar a turva incerteza,
o momento crucial quando surgiu a ferida,
a arrebatada fogueira onde nasceu o sentido
da escravidão, da liberdade e dos afectos por dentro das pulsões humanas;
Então, ó minha subtil pergunta,
se tivesse a essência da sorte
e o imune do poder mais sedutor,
convencido estaria então que bastava a economia para me resolver por inteiro.
Contudo, pergunto a Byung (sendo este professor de Artes):
poderia acaso, a loucura do inútil e do impossível,
(isto é, o entusiasmo, a criação, a invenção, o amor, a poesia)
ser considerado uma mercadoria?

 

29.03.2018
Álvaro Couto

.

 

.

.

.