A vida social, económica e política é filtrada pelos meios de comunicação social. A infantilização, a idiotização que propagam, é uma pedra de fecho. Nada é inocente. O objectivo é que nem sequer seja possível pensar que é possível pensar um mundo outro. Há que lutar, no inferno destes tempos estúpidos, por valores nos antípodas dos que nos são vendidos de sol a sol.

«Discurso Eleitoral», desenho a tinta da china, Agosto 1969, publicado no Diário de Lisboa/Mesa Redonda 19 de Setembro 1969 Créditos: João Abel Manta

Não haverá uma tradução que exprima a amplitude do significado de spleen, o que explica porque Baudelaire o utilizou, sem tentar traduzir, no título de um grupo de poemas Spleen de Paris e no título de vários dos poemas dessa série (*). Spleen é o que Walter Benjamin descreve «como o sentimento que corresponde à catástrofe em permanência». Nos tempos que se estão a viver é determinante para o pensamento único impor um sistema a partir de condições pré-estabelecidas para dissuadir os homens de intervir. Vive-se mergulhado num permanente spleen.

Sistema que faz prova de vida como se fosse um caleidoscópio em que, sempre com os mesmos cristais, quando se roda o tubo se transforma a desordem numa nova ordem e as sucessivas imagens virtuais simulam uma pulsação que não existe nem desinquieta a base com que se formam novas imagens. A realidade permanece quase imutável por debaixo das camadas de maquilhagem que se vão acumulando, deixando intocado o essencial. A perversidade é a crescente importância que as imagens virtuais adquirem para garantir a quase imobilidade do sistema, num cenário em que o simulacro e a simulação substituíram a realidade.

Vive-se um presente empobrecido em que o pensamento débil é preponderante, o mau estar intelectual está contaminado pelo niilismo e o relativismo, a cultura é sepultada e ressuscitada pela efemeridade das modas que a torna cada vez mais inculta, os clichés vulgarizam-se como se fossem apotegmas. Tudo sinais da profunda crise que se vive e se diverte a traçar cenários de futurologias tão fundamentadas como as previsões astrológicas.

A vida social, económica e política é filtrada pelos meios de comunicação social, dos tradicionais, ferreamente controlados pela plutocracia que os detém, aos aparentemente livres como as redes sociais que funcionam como uma válvula de escape que está sempre na mão de quem tem poder efectivo sobre o algoritmo, pronto a regular a pressão, a denunciar…

Nesses universos nada é inocente. O grande objectivo é que nem sequer seja possível pensar que é possível pensar um mundo outro. Para que não haja pontos de fuga e o mundo continue a ser TINA (There Are No Alternatives), entrincheirado na crença de que tudo é resolúvel e eternizável com opções gestionárias. Nada de novo na frente ocidental, como o príncipe de Falconeri tinha antecipado: «para que as coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude». O reino d’O Leopardo triunfante, mesmo quando desconhece Maquiavel, o que é incerto. É assim que Trump sucede a Obama, Theresa May a Cameron, Macron a Hollande, Junckers a Durão Barroso, Merkel a Merkel e…

Monumento Nacional (1). Desenho a tinta da china e fotografia, Novembro 1969. Publicado no Diário de Lisboa/Mesa Redonda, 21 de Novembro 1969. Créditos: João Abel Manta

Nesse processo em contínuo a infantilização, a idiotização que os meios de comunicação social propagam é uma pedra de fecho. Acende-se o ecrã televisivo para fazer zappingpelos programas de inutilidades que os empapam de manhã à noite, com apresentadores que querem causar uma boa impressão, ao vazio com que preenchem horas e horas a debitar, sem nenhuma convicção, banalidades.

São muitas horas consumidas nos vários canais televisivos, a variedade não implica diversidade, em programas com destaque para o desporto que se resume ao futebol, a repetir e sobrepor dissertações num português de chuto em força para a frente, o que replica um país onde a iliteracia é um problema mas tem três jornais diários, com tiragens assinaláveis, dedicados ao desporto, onde mais uma vez o desporto é residual, o futebol dominante. Apavorante é dar uma rápida olhada aos comentários ajavardados dos leitores nesses mesmos jornais on-line, que nos prepara para não se ficar assombrado pelos que são feitos, mesmo os mais brunidos, em todos os outros a qualquer género de notícia.

O quadro completa-se se, à vulgaridade e estupidez dessas tertúlias adicionadas às mesas-redondas temáticas, se juntarem os comentários políticos, económicos e sociais, os alinhamentos noticiosos de notícias fabricadas com falsa independência, o que traça um panorama que tem por objectivo incapacitar o atingir-se de uma consciência crítica da realidade.

Uma teia que se estende adrede sobre a sociedade, em que se tropeça com cada vez mais frequência. É ver como crescem nas livrarias as estantes com livros de auto-ajuda de psicologia a pataco, do misticismo de vencer na vida e ser feliz aceitando a pobreza real e espiritual como um valor de uma sociedade onde sempre houve pobres e ricos, opressores e oprimidos, não tem nenhuma dignidade para oferecer.

Um sistema prenhe de subtilezas que planta onde pousa, e pousa em todos os lados e por todos os lados, o lixo de uma subcultura reles, corriqueira, que tem no entretenimento vazio o seu alfa e ómega. Um muro construído com todas as pedras da lógica da desculturização e da despolitização para cercar eficazmente a utopia enquanto exploração do possível, de se ir além do imediato. Um muro que protege esse mundo estandardizado onde tudo é feito para que se acredite que a verdadeira vida é assim, submetida à ditadura da necessidade, em que «a liberdade se deve submeter às urgências do processo da própria vida» (Hannah Arendt), em que, na melhor das hipóteses, a garantia de morrer de tédio é vendida como garantia de não morrer de fome. Um processo em que a impotência induzida cerceia a liberdade individual, a própria identidade.

«A Praia dos Pássaros Esquisitos». Desenho a tinta da china, Dezembro 1969. Publicado no Diário de Lisboa/Mesa Redonda, 9 Janeiro 1970. Créditos: João Abel Manta /

Entretenimento vazio que idiotiza a sociedade, empurra a cultura para um bullying em que se corrompe e que, como avisa lucidamente Blanchot, acaba por «não poder fazer mais do que desdobrar-se gloriosamente no vazio, contra o qual nos protege, dissimulando-o».

No mundo actual a sociedade da informação, reforçada com a expansão do ciberespaço, é dominada pelas plutocracias que, por essa via, se tornam mais poderosas e mais eficazes na captura dos estados e dos partidos políticos que perderam horizontes ideológicos e a quem dão apoios variáveis em função dos seus interesses económico-financeiros. O entretenimento vazio, a tralha informativa são os seus poderosos pilares, pensados para paralisar os seres humanos, para os encerrar nos cárceres do pensamento único, dando-lhes como única saída possível o suportá-lo estoicamente num simulacro de liberdade que é um modo de manipular a humanidade.

Vive-se um tempo absurdo, imerso em spleen. Há que ter bem presente, nesse estado catastrófico, o aviso de Walter Benjamin: «para que as coisas “continuem como estão”, é isso a catástrofe!», com a certeza possível de que «o conceito de progresso assenta na catástrofe». Há que trabalhar sobre a(s) catástrofe(s) em que está mergulhada esta sociedade para lhe retirar as gangas, encontrar as estradas do progresso. Há que lutar, no inferno destes tempos estúpidos, contra este tempo estúpido, por valores nos antípodas dos que nos são vendidos de sol a sol, com uma obscena violência e uma contumácia que não desfalece. Há que lutar sem tréguas, passo a passo, minuto a minuto porque «ver aquilo que temos diante do nariz requer uma luta constante» (George Orwell) e porque, como escreveu Marx numa carta a Ruge, «Nós não confrontamos então o mundo, de um modo doutrinário, com um princípio novo: Está aqui a verdade, ajoelhai-vos! Nós desenvolvemos para o mundo, a partir dos princípios do mundo, princípios novos». É com príncipios novos com a idade de Marx mas que estão sempre a ser inovados que se deve lutar contra este mundo que nos procura asfixiar.

(*) Quando o cinzento céu, como pesada tampa,/ Carrega sobre nós, e nossa alma atormenta, / E a sua fria cor sobre a terra se estampa, / O dia transformado em noite pardacenta;// Quando se muda a terra em húmida enxovia/ D’onde a Esperança, qual morcego espavorido,/ Foge, roçando ao muro a sua asa sombria,/ Com a cabeça a dar no tecto apodrecido;// Quando a chuva, caindo a cântaros, parece/ D’uma prisão enorme os sinistros varões,/ E em nossa mente em febre a aranha fia e tece,/ Com paciente labor, fantásticas visões,// – Ouve-se o bimbalhar dos sinos retumbantes,/ Lançando para os céus um brado furibundo,/ Como os doridos ais de espíritos errantes/ Que a chorar e a carpir se arrastam pelo mundo;// Soturnos funerais deslizam tristemente/ Em minh’alma sombria. A sucumbida Esp’rança,/ Lamenta-se, chorando; e a Angústia, cruelmente,/ Seu negro pavilhão sobre os meus ombros lança!

Charles Baudelaire, O Spleen de Paris; LXVII Spleen, in As Flores do Mal; Tradução de Delfim Guimarães

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MANUEL AUGUSTO ARAÚJO

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