Uma homenagem pessoal a Karl Marx

Camaradas

Certamente que cada um dos presentes, terá descoberto Marx à sua própria maneira: certamente em algum livro, talvez numa escola, porventura em algum organismo político ou mesmo sindical, quiçá no seu próprio local de trabalho.

Porém, no meu caso foi mesmo num cemitério (acreditem!) que eu descobri que o marxismo era superior ao existencialismo, e que a dialéctica do Marx valia duas vezes o ser do Sartre.

É verdade: por baixo da terra que eu pisava, em túmulos anónimos, senhores e camponeses, partilhavam o mesmo sono escatológico; mulheres mortas de parto, vitimas de antigas pestes padres missionários nos confins do mundo, ali juntavam os ossos na mais exacta das igualdades. Ali o ser e o nada lutavam entre si; e o resultado era a superação dialéctica dos contrários, o princípio fundamental da filosofia, a luz da matéria contra a treva do espírito.

A partir desse dia já nada podia convencer-me do contrário, virando então mais um jovem comunista. A razão que nós pensamos que temos tornou-se o motor do mundo; e quando aquilo que a faz mover é a gasolina hegeliana, esse movimento de pistões da tese e da antítese, somado ao poderoso acelerador da síntese, então até o sol da terra não passa de um lâmpada de sessenta voltes; e mesmo os tipos mais poderosos do mundo parecem simples faúlhas de isqueiro ou pálidas chamas de vela a apagarem-se à mínima corrente de ar.

Confesso que nessa altura (aluno em uma escola católica) o meu marxismo era uma espécie de ideologia aristocrática: algo de ateniense, numa sociedade em que (pensava eu) a vanguarda gozaria todos os privilégios só por pensar melhor que os outros.

O marxismo não tinha feito, ainda, com que libertasse dessa velha supersticiosa – a dama religião – e nessa altura uma das coisas que não se podia dizer, nem ao padre, era a crença no comunismo. Com efeito, o sonho de revoluções e utopias era o mais inconfessável dos pecados: a última blasfémia.

É verdade: foi por mera inacção religiosa que cheguei depois a Lenine. Só, então, por via da acção, é que vim a descobrir que o mundo, afinal, estava cheio de marxistas que apenas adoptam esses ideais só para serem excêntricos ou para matar o pai (vide Freud), ou para traírem a própria classe, como esses dandy’s que caíram nas lusitanas fileiras socialistas, bloquistas e, inclusive, social-democratas. Podia-se dizer que a história do marxismo se encontra cheia de equívocos destes, embora a teoria de Marx, em si mesma, não se tratasse de nenhum equívoco na marcha da Ciência.

Camaradas

Em matéria de equívocos, também se poderia dizer que vários foram os erros que conduziram à queda do socialismo na União Soviética, mas a Revolução Russa e a decisiva resistência ao nazismo na II Guerra Mundial, com a reconhecida mortandade infligida ao povo soviético, não foi um equívoco na marcha da luta dos povos pela Liberdade, pela Democracia e pela Paz.

Como se poderia dizer, igualmente, que não se tratou de nenhum equívoco na marcha da História, a quantidade de massas e massas de famintos que, durante séculos e séculos, povoaram a Terra, cuja posse pertencia exclusivamente a uma casta de nobres.

Como se pode dizer, ainda hoje, que a concentração em meia dúzia de mãos de todas as máquinas existentes, de todo o capital existente, de toda a riqueza existente, obtida através do trabalho das mãos e do suor do corpo de milhões e milhões de homens e mulheres, não foi (nem é) nenhum equívoco na marcha da Luta dos Trabalhadores pelo fim da exploração de um Homem por outro Homem.

Como se poderá dizer o mesmo inclusive amanhã (na pré-anunciada Era da Informação e da Comunicação), mesmo que esta se venha a constituir no futuro (crendo, pelo menos, no que alguns dizem) em cada vez mais novas e sofisticadas tecnologias, em inimagináveis descobertas da medicina, na massificação total da informação, no reinado de dados informáticos e micro-dados cibernéticos, e na proliferação infinita das redes de comunicação, as quais entrecruzarão o espaço do planeta à velocidade sideral, passível até de transformarem a própria fisiologia humana tal como hoje a conhecemos, nem mesmo isso provocará equívocos na natureza inteligente da Marcha Humana.

Camaradas

A natureza humana não nasceu de um equívoco, pois todos nós logo à nascença, parafraseando o que disse Marx há muitos anos atrás, POR UM PARTO, NASCIDOS JÁ SOMOS PELA LUTA! POR UM PARTO, NASCIDOS JÁ SOMOS PARA O SONHO . . . DA VIDA!

E, assim, te disse – Karl Marx!

Voz do Operário, 25 de Fevereiro de 2018

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