Excelso Distinto Pedagogo andava inquieto. Homem maduro e reconhecido, de boa cepa, curiosamente com a distinção vinda do pai, família brasonada e tudo, e a patine pedagógica da mãe, mestre das maneiras e das letras. Enfim, um Senhor!

Não era o serviço a razão da sua inquietação, geria habilmente o Liceu da terra, acomodando os interesses do Ministério da Educação, da autarquia e dos papás do sítio, apascentando, quase sem vara, professores e demais trabalhadores, elevando aos píncaros a excelência da instituição.

Não era, também, pela notícia do jornal local – “Liceu mantém liderança concelhia nos Exames do Secundário mas soçobra nos do Básico perante uma Escola Comercial surpreendente”. Excelso sabia distinguir o conjuntural do estrutural, aquilo era sol de pouca dura, no ano seguinte tudo voltaria ao normal, ou não estivessem no Liceu os melhores alunos do oitavo ano.

Não era, portanto, a concorrência que o atormentava, apesar deste sobressalto no ranking do Básico tudo estava no seu lugar, à semelhança de um armário, o Liceu na primeira prateleira, a Escola Comercial na segunda, a Escola Industrial na terceira, a Escola Agrícola na quarta e o Centro de Formação dos Desvalidos na última.     

O que moía o Senhor Director era haver homens às direitas que queriam acabar com os Exames. Isso ele não estava a perceber. Lá que os das esquerdas andassem nessa vida até percebia. Tinha inclusive alguns lá no Liceu, eram assim para o resmungão, encanzinavam reuniões, mas pronto, cumpriam as obrigações. Aquilo é lá da natureza deles, comentava nos jantares de beneficência!

Agora, homens às direitas, de vetustos pedagogos a jovens liberais, defenderem tal coisa é que não. Pior, sabendo que os do Ministério da Educação tendiam a seguir as eminências encartadas e os ousados modernos, pela sapiência dos primeiros e o arrojo dos segundos, antevia já, no horizonte, o ocaso do seu modelo pedagógico das prateleiras.

Anos a fio a encaminhar alunos para o seu lugar natural, socialmente conveniente, de acordo com a sua origem. De cada fornada concelhia anual, cerca de quinhentos alunos, o Liceu ficava com cem, através de um complexo processo pedagógico, que envolvia os decisores da escola, a autarquia e algumas associações de pais.

Um processo que possibilitava à Escola Agrícola e ao Centro de Formação ficarem com a totalidade dos alunos de escalão A e da Educação Especial para assim terem acesso aos recursos mais adequados. Do mesmo modo, e por idêntica razão, os alunos de Escalão B eram pedagogicamente encaminhados para as Escolas Industrial e Comercial.

Mas, este trabalhoso processo não ficava por aqui, havia ainda que aconselhar e encaminhar para outras escolas os alunos que, coitados, se revelavam aquém do nível Liceu. E este ano, fruto da troca de experiências com outros Reitores, também versados na técnica de encaminhar (entre turmas, cursos e escolas), aplicava nova medida – aconselhava os alunos com negativa na Páscoa a anularem a matrícula e a concorreram como externos a Exame, noutra escola.

E agora? Como evitar o declínio e a queda? Excelso buscava, todos os sábados, nos jornais de referência, uma solução. E um dia encontrou, num artigo de um jovem liberal, daqueles da sociedade arrumadinha, cada um na sua prateleira, mobilidade social higiénica apenas, só para arejar e para mostrar distâncias com os tempos do António de Santa Comba. Afirmava o escriba – o acesso ao superior e a escolha dos alunos deve passar para as faculdades, especializando-se as escolas secundárias num determinado tipo de alunos. Ah!!! Mas isso já eu faço!  Afinal a arte está no Encaminhar e não no Exame! Posto isto, viveu feliz para sempre.