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Confrontado com a denúncia feita à PGR de que tinha recebido, quando era deputado em exclusividade de funções, cinco mil euros por mês da Tecnoforma e de não ter feito a declaração fiscal desse dinheiro, Passos Coelho optou por uma crise de amnésia total.

São «casos» como este, de Passos Coelho e da Tecnoforma, que descredibilizam a política e os políticos.

Confrontado com a denúncia feita à PGR de que tinha recebido, quando era deputado em exclusividade de funções, cinco mil euros por mês da Tecnoforma e de não ter feito a declaração fiscal desse dinheiro, Passos Coelho optou por uma crise de amnésia total. Não se lembrava se tinha estado em exclusividade de funções, nem se tinha recebido dinheiro, nem se o tinha declarado, etc.

Passos Coelho continuou a farsa remetendo os esclarecimentos para a PGR e para a AR, sabendo por outro lado que a Procuradoria iria considerar, para efeitos jurídicos, os factos como prescritos e contando, por outro lado com a complacência da sua bancada na Assembleia da República.
Os serviços da AR tiveram um comportamento inqualificável.

Para fazer o jeitinho ao sr. primeiro-ministro, usaram de meia verdade para com ela esconder a verdade.
De nada serviu.

A imprensa publicou os documentos que confirmavam a exclusividade de funções.

Uns dias mais tarde, no debate na AR Passos Coelho já tinha recuperado a memória: já se lembrava que não tinha trabalhado para a Tecnoforma mas sim para uma (falsa) ONG (ligada à Tecnoforma) e só tinha recebido despesas de representação.

A amnésia era agora parcial: não se lembrava quanto tinha recebido.

A questão pode estar encerrada do ponto de vista jurídico não o está nem política nem eticamente.

Entretanto ficamos a saber que o deputado Passos Coelho requereu e recebeu no ano de 2000 sessenta mil euros da AR de subsídio de reintegração…
O primeiro-ministro que tão inflamadamente se insurge com as despesas do Estado, que diz ser imprescindível emagrecer o Estado, que cortou abonos de família, subsídios de desemprego, salários, complementos solidários para idosos, subsídios de reinserção social, pensões de viuvez, e pasme-se reduziu de 30 para 12 dias as indemnizações por despedimento por cada ano de trabalho, usufruiu ele próprio do Estado que tanto condena.

Se então lhe fosse aplicada a lei que ele acha justa e que impôs aos outros, teria recebido apenas cerca de três meses de salário.

Enfim, há remediados e «remediados»… e alguns realmente muito bem.

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2132, 9.10.2014