Ao digníssimo senhor Bagão Félix

 

Ezra Pound chamou-lhe «pecado contra a natureza» e os Papas Sisto V e, o agora, Francisco I «pecado contra Deus e contra os homens». O empréstimo de dinheiro a juros, o «lucro sem labor», é considerado imoral pela Bíblia (no Êxodo, no Levítico, no Deuteronómio, nos Evangelhos de Lucas e Mateus), proibido pelo Corão, condenado pelos filósofos (Platão, Aristóteles, Séneca, Plutarco, S. Tomás de Aquino . . .) por Maomé, por Moisés, pelo Buda; foi banido em concílios como o de Niceia e o de Latrão, declarado heresia e blasfémia por Clemente V; e Dante colocou os usurários – a quem a Igreja chegou a recusar os sacramentos e o funeral cristão – no interior do sétimo círculo do Inferno.

Os usurários tornaram-se entretanto gente respeitável, capaz de temer a Deus e pregar valores morais e, simultaneamente, ler pela cartilha de Bentham, que, em 1787, na sua «Defesa da Usura», defendeu que cada homem deve ser o único juiz do modo como obtém lucros, não tendo que se ater a empecilhos morais.

É assim que ponho, de novo, as mãos no teclado, para fazer sobressair a questão moral nas prodigalidades económicas suscitadas entretanto pelo Manifesto dos 70 – estudo financeiro que define a Dívida Nacional (mais de 200 mil milhões de euros) como impagável, nos termos em que está estabelecida pelo chamado – cruz, credo! – Pacto de Redenção (só possível, por um lado, com taxas de juro e valor do défice abaixo dos 3% e, por outro, um  crescimento do PIB e do aumento das receitas primárias, somando-se estas na ordem dos 7,5%), estabelecendo, por isso, a necessidade da sua reestruturação como único modo de se efectuar o seu efectivo pagamento (proposta assente, sobretudo, na necessidade de maior investimento na produção nacional, no aumento do consumo e da procura interna, no rebaixamento das taxas de juro, no alargamento dos prazos das prestações e na mutualização europeia das dívidas nacionais, que excedam os 60% do valor do PIB).

Contas feitas, dir-se-á que este manifesto – assinado por 70 cristãos-novos da oposição ao governo e à Troika – não traz qualquer novidade política, nem mesmo financeira. (Quantas vezes o PCP já disse isto? E quando não era tão fácil, nem tão gostoso?). Mas a impressão do Manifesto dos 70 foi grande, aqui, nesta terra, pouco habituada a tais larguezas ideológicas, económicas, sociais e religiosas. E foi, sobretudo, larga e ruidosa a sensação da bordoada que se seguiu – forte e feia, por parte de Passos Coelho, a torto e a direito, no que diz respeito a Cavaco. Que o digam Bagão Félix e Adriano Moreira ou os ex-conselheiros Sevinate Teixeira e Victor Martins, já para não falar de Manuela Ferreira Leite e do patrão dos patrões – esse cristão-novo conhecido por Saraiva.

Conclui-se assim, que um ajuste de contas quando é feito à razão da bordoada, o problema não está nas contas, mas nos homens. E, neste sentido, mais uma vez esta verdade seja dita: o homem é sempre a medida de todas as contas. Neste caso, daqueles que pagam e daqueles que comem, em matéria de dívidas. Já sabendo nós quem paga a factura desse bolo, faltava-nos ainda saber, quem é que só se dispõe – à direita e à esquerda – a comer o bolo. Quem se senta ao colo de quem. Quem está sentado, afinal, à mesa do banquete orçamental. E, isso, não é só uma questão económica-financeira, é essencialmente moral. Voltando ao Canto XLV de Pound, «trouxeram as putas para Elêusis / cadáveres dispostos no banquete / às ordens da usura».

Isto, o Manifesto dos 70 não disse, mas (até pelas suas raízes profundamente cristãs) podia e devia ter dito – já não digo em nome dos pagantes – mas, ao menos, em nome do Senhor!

Álvaro Couto, in Crónicas a Sul, 2014