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(Ao amigo, Dr. Luís Silva,

ainda dos poucos militantes deste partido,

 que reclama por uma verdadeira social-democracia)

 

Toma Ze Povinho do Museu da Cerâmica autor RBP 1902No momento em que CS, sai de Belém, sorrindo para a sua maria, e pega no volante do seu novo carro, fazendo pisca-pisca à direita para cortar na Marginal, já PPC anunciava ao congresso do PieSseDê, em pleno Coliseu, o seu programa pós-Troika: Portugal está melhor com a austeridade – logo, austeridade é o futuro! Entretanto, SL que assistia, num camarote VIP, aos últimos minutos do jogo do Rio Ave-Sporting, nem espera pelo fim do jogo e, na qualidade de presidente da humanista SCML, sobe ao palco para dizer: «Austeridade, sim, senhor, mas apenas duas vezes ao dia», logo seguido por LA – titular do MF –, que não estando para ajustes ao ajustamento financeiro, se vê assim obrigada a replicar ao mesmo microfone: «Companheiros, a austeridade só resulta no doente se for aplicada três vezes ao dia – ao acordar, durante o dia e ao deitar». Enquanto o congresso escolhe qual a dose a aplicar ao desgraçado do povo, MRS que jurou não pôr os pés no Coliseu, nem que Jesus regressasse à Terra, desce até às Portas de S. Antão, para jantar uma mariscada presidencialista em companhia de alguns rapazes, que ficamos sem saber se serão promissores Jotinhas ou apenas os putos da JuveLeo, pois que desenroscam lâmpadas, gritam obscenidades e exibem, com esgares simiescos, as suas tatuagens e barras de ferro. No pátio da prisão, junto ao gradeamento, OC olha a Lua, em quarto decrescente no céu desde que caíram as acções do BPN, e imagina como estará o Coliseu alguns anos depois em que, juntamente com CS, eram ambos figuras do cartaz congressista (longe dali, muito longe dali, MFL coze batatas para o jantar, com os olhos parados na água que ferve, sem saber porque lhe veio de repente à cabeça as suas aulas de economia e os rostos dos seus alunos (JCN, MC, MC, etc.), repetindo as suas teses sobre a suspensão da democracia, a inutilidade dos serviços do Estado, a morte imediata de todos os velhos aposentados que só acrescem despesas à Segurança Social, ideias defendidas há tantos anos pela sua boca – os lábios finos de MFL, entreabertos, diante do auditório da Faculdade – e que as encruzilhadas da vida veio a juntar agora, não se sabe como, em especializados comentadores de televisão. Sobre o céu da Europa, num voo de regresso à Alemanha, AM tenta dormir, mas não consegue porque os três passageiros do lado, seus empregados no FMI, no BCE e na EU, falam animadamente sobre um patusco folião no carnaval madeirense que eles viram ao vivo, um ano antes, e que ali está, nas páginas da revista oferecida pela TAP, chama-se AJJ e ao vê-lo em pose mascarada, dançando pelas ruas do Funchal, numa fotografia cheia de dourados, AM reconhece-o e não consegue conter a tristeza, muito menos as lágrimas, por aquele bom companheiro ter perdido as últimas eleições. De regresso ao congresso, a voz de FR, entretanto, parece que se deixa cair num requebro ao tentar pôr fim ao discurso de um delegado que está levando ao êxtase o público do Coliseu. Esse delegado mesmo não tendo direito a sigla, faz questão de falar sempre nos congressos do PieSseDê, sendo conhecido entre pares como O-Bacoco-Lá-Das-Caldas. Já madrugada adentro, MM telefona entretanto ao pai e as capitais tricas do seu filho mais pequeno espalham-se, ambiciosamente, pelo resto do país, chegando como que em surdina a uma das varandas do Coliseu onde SM, abraçado à garrafa de gin, decifra as considerações sobre as futuras hipóteses presidenciais do seu companheiro DB, que tendo abandonado com imenso sacrifício o governo e o país, uns anos antes, se prepara agora para deixar a sua patriótica comissão de serviço na CEE. Perdido numa espécie de quadratura de círculo, PP não tem a lucidez suficiente para compreender que o seu velho PieSseDê, o tratado filosófico-liberal a que dedicou a vida inteira, nunca será mais do que foi a sua antiga OCMLP: um aglomerado de ideias dispersas, sem centro nem circunferência, espalhadas por interesses que ninguém compreende (nem compreenderá). No dia seguinte, será MAC – secretário-geral do PieSsedê – quem lhe dirá a verdade, olhos nos olhos: «que PP se deixasse de filosofias e aprendesse com MR», de novo na ribalta política como presidente do conselho nacional, depois de se salvar do desespero e do excesso de comprimidos, provocados pelo trauma de uma licenciatura fantasma. Na sombra, outro PP – este do CêDieSse – conta os minutos, junto ao telemóvel, para dali se pôr a andar lá para fora. Não se sabe quando o telemóvel tocará. Mas, na altura própria, ele não deixará de tocar.

Só as câmaras da RTP, SIC, TVI, os conhecem a todos. Só elas os distinguem, visto de cima, o esquema que formam. Apareceram em minha casa sem que eu os chamasse. Siglas que a televisão, desde há 40 anos, vem transformando em política. Trinta e sete siglas, trinta e sete incógnitas, código escrito a dissolver-se numa aflita mancha de palavras e de vaidades. Num Coliseu a que não falta, sequer, um das Caldas. Dois, se contarmos com o manguito que, daqui, lhes faço.

Álvaro Couto, in Crónicas a Sul, 2014