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“não há ninguém que aguente tanta salvação”

Luís Sttau Monteiro

As desgraças cá da Graça

“A Mosca”, 19 de Outubro de 1974

A propósito de mais um truque para sustentação do actual governo, perpetrado pelo senhor Presidente da República, em torno de um certo “Compromisso de Salvação Nacional”, assistimos, recentemente, a um folhetim de amores e zangas, 24 sobre 24 horas, tantos eram os encontros e desencontros e as reuniões entre PS, PSD e CDS. Finda a sementeira, para usar o léxico do promotor, tudo como dantes: o mesmo governo e a mesma política. O PS mordeu mas não engoliu o isco de socializar os prejuízos da acção governativa de PSD e CDS. Salvos do “Compromisso de Salvação Nacional”, continuamos, porém, reféns da política do Memorando da Troika, com as consequências que se veem e que se sentem.

Seguindo o jargão modernaço da separação entre Política e Economia, que os clássicos não se atreviam a usar (era Economia Política, tanto para Marx como para Ricardo e Adam Smith), podemos dizer que o Memorando da Troika será (poderá ser, porque o futuro é imprevisível) um êxito político, para quem o traçou, um desastre económico, para quem o está a sentir. O objectivo político do Directório da União Europeia é empobrecer os países periféricos, isto é, baixar o padrão de produção e de consumo destes povos, conseguindo por essa via ter europeus para responder a todas as necessidades de mão-de-obra da União Europeia.

Para isso é necessário criar como inevitável a ideia de que é natural hoje viver pior do que ontem, ter direito a menos do que ontem, ter que trabalhar mais do que ontem e  por menos salário. E isto será viável economicamente para esses povos e esses países? Conseguirão assim pagar as dívidas contraídas pelos estados, ou que a Banca contraiu em seu nome? Claro que não! Mas como dizia Clausewitz o objectivo primeiro da Guerra é político, não militar. Assim, na Política, o económico só existe em função do político, se a União Europeia pretende baixar o nível de vida em Portugal, fazendo-o tem sucesso. Para os portugueses (e para Portugal) baixar de nível de vida é um fracasso.

A opção que as forças políticas portuguesas têm que fazer é esta: colaboramos com a política de ocupação económica da troika ou resistimos a ela. Os partidos da direita estão com a primeira, os partidos à esquerda do PS estão na segunda. E o PS? Num certo sentido a divisão entre esquerda e direita, em particular em momentos como este, sempre esteve dentro do próprio PS. Não há alternativa política de esquerda sem o PS. Mas também não há alternativa política de esquerda com um PS de alternância. É este o nó górdio. Como o desatar? A luta e o protesto (inclusive no voto) são os instrumentos. Setembro (autárquicas) e Outubro (Orçamento de Estado para 2014) são momentos.

Boa Férias… para quem as tiver!