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franciscoHá precisamente oito dias foi anunciado um novo pacote de austeridade. Chamaram-lhe corte na despesa estrutural de Estado. Dizem ser necessário porque não se pode ter dez de riqueza e gastar onze, a estafada tese do vivemos acima das possibilidades. Esta ideia remete-nos para a consideração de que o valor da riqueza produzida é fixo e o da despesa variável e crescente. Nada mais errado.

Primeiro, porque a riqueza produzida pelo país é, também, variável e está em queda, em queda por causa dos sucessivos pacotes de austeridade. Em 2013 a riqueza produzida será inferior à de 2012, que por sua vez foi menor que a de 2011. A aplicar-se o pacote de austeridade, apresentado sexta às oito, a riqueza a produzir em 2014 será inferior à de 2013.

Segundo, porque despesa há muita e nem todos os cortes têm efeito recessivo. Cortar nas PPP e nos serviços externos contratados não tem o mesmo efeito recessivo que despedir professores, médicos e administrativos. E se os efeitos dos cortes nas PPP e nas “externalizações” são muito menores do que os cortes nos salários e na extinção de postos de trabalho nas funções sociais do Estado, outras despesas existem cujo efeito é mesmo nulo, como é o caso dos juros e serviço da dívida à troika.

Sobre os cortes na dívida dizem que a “Europa” não quer e que nós somos pequeninos. A questão, porém, é que nós não somos pequeninos, os povos do sul (da Europa) somam muitos milhões e a sua espiral recessiva contaminará o norte e a própria cabeça da hidra, a Alemanha. Pergunta-se então, porque quer a Alemanha (quem nela manda, mais precisamente) isto. É por interesse? Qual?

Façamos um paralelo com a China. Há várias Chinas dentro da China, isto é, há regiões desenvolvidas, há regiões em vias de desenvolvimento, há regiões subdesenvolvidas. O bloco económico China tira partido desta diversidade de perfis produtivos e de consumo. O bloco económico União Europeia parece querer fazer o mesmo, criar segmentos diversos de perfil económico, tanto ao nível de produção como de consumo.

Há uma diferença entre os dois blocos económicos, a China caminha do subdesenvolvimento para o desenvolvimento. Os povos do sul da Europa, pelo contrário, caminham de cavalo para burro. Eles são emergentes, nós imergentes. Ambos “os modelos” são racionais, a diferença é que o nosso é (neo)colonialista. Que a Alemanha e o Capital o queiram impor eu percebo (aumenta a exploração), que Portugal o aceite é que já me custa entender.

Antes de terminar esta coluna sobre o sexta às oito, não resisto a deixar uma nota sobre o domingo às sete, e esse ilustre deputado municipal arouquense, Paulo Portas de seu nome, em particular, a sua lapidar tese – estou a favor, portanto, sou contra.

É um especialista em soprar ao ouvido de determinados sectores da população. São já um clássico as suas (re)encarnações. Relembrando algumas delas:

– já foi combatente nas Áfricas, contra o esquecimento da memória de um povo;

– já foi agricultor, homem do campo, contra o novo-riquismo e os maneirismos urbanos;

– já foi pobre trabalhador do salário mínimo, contra os abusos de alguns do rendimento mínimo.

Agora fez-se reformado, pensionista, contra o saque nos descontos de uma vida de trabalho. Paulo Portas, habilidosamente, pega em causas particulares, justas muitas vezes, cavalga-as e tira delas proveito. Depois, abandona-as. Em Arouca temos disso exemplo. O que ficou do seu trabalho enquanto deputado municipal?    

Arouca, 15 de Maio de 2013

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