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Antes que, por cá, a gente se tenha lembrado de reformar-se do governo – esse demónio – o Papa reforma-se de Deus. Horas depois, estalam mesmo dois raios sobre a Basílica de S. Pedro. Será isto, coincidência ou um sinal de Deus?

Não responda quem desconheça os mistérios desígnios de Deus. Pois no adiante, se impõe o verso dessa estória. Mas, comecemos antes do início, como mandam as narrativas.

Nem a frescura da neve, nem os sois tíbios das palmeiras, nem o fogo do deserto consolaram Rei Salomão de tanto fastio. Nem sequer o amor ou o riso bastaram, faltava sempre algo na sua paz fatigada. Rei Salomão, sentindo-se angustiado decidiu regressar ao seu reino. Deus, o velho Deus, teria de escutá-lo. Um tormento interior o assolava:

Senhor, tenho as águas dos rios, as flores e os pássaros, o vinho e a mulher, que incendeia a beleza e o paraíso e, às vezes, também o inferno. Falta-me algo formoso, algo com que viva, o espere ou sonhe, algo que me abrevie ou retenha, alma da saudade, vida da alegria, esse grande segredo que guardas em ti mesmo.

Então, Deus, triste como estava por ter criado o homem demasiado imperfeito, num gesto de magnânima bondade, deu-lhe algo que lhe adoçasse o vazio: esse tormento e luz: a poesia.

Assim, com a palavra minando dentro, o homem reflecte-se ao espelho, pela primeira vez. O que vê? Uma imagem humana feita à semelhança da imagem de Deus. Foi então que, numa rajada, se escreveu o tal poema do Rei Salomão.

É o retracto de um ser imaginário. Apontando para o ar. A partir de um mundo que nos despe e floresce. Quem assim se via, tinha a surpresa de um instante absurdo que nunca antes se houvera entendido. Mas a sua eficácia foi tão precisa que o seu disparo incendiou mesmo o fervor extasiado dos corações dos homens.

É um dom, um prémio ou um milagre, servindo para tudo e para nada! – disseram então os homens. Estes, desde esse dia, nunca mais deixaram de procurar tamanho achado e poder. Tanto assim foi, que cada qual se dispersou, acreditando em sua própria religião como se nela estivesse alguma salvação. Tanto assim é que, ainda hoje, uns e outros matam-se em nome disso. 

Adiante, que o tiroteio que por aí se escuta não diz respeito a este caso.Esta estória é um caso de raios.

Entretanto, falando de raios e castigos, ainda conto o meu caso pessoal com Deus. Houve um dia, julgando que estava a salvar-me com ele, quase ia morrendo. Explico-me: percorria então o mundo, pensando que este estava ao alcance das palavras. Por fim, apenas descobri que nelas, Deus não estava lá, só eu. Valeu-me, depois disso, desistir-me de grandes sapiências e até de pequenas viagens.

Regresso, então, ao caso que o intróito vai longo e o quintal já é maior que a casa.

Ontem, o Ratzinger resignou: temos então que, antes de morrer, o próprio Papa reforma-se de Deus! Explica-se ele: o corpo não já não aguenta a canga da fé. Só não disse se foi por desapego, doença ou arrependimento ou se a decisão foi vontade sua ou é vontade de Deus.

Instantes depois da declaração papal, sobre a igreja de S. Pedro, caem dois enormes raios que fazem estremecer todo o Vaticano. Pergunto: os raios serão coincidências ou sinais do castigo de Deus?

De boleia na pergunta termino também a viagem. Apeio-me já neste parágrafo, para responder.

Não vem mal nenhum ao mundo, acreditar se o raio do velho Deus existe ou não. Para mal do mundo e dos nossos pecados, é saber que o demónio existe mesmo – em carne e osso!  Na nossa terra, dá pelos nomes: capitalismo-governo  troika- cavaco-ulrich, etc.

Assim, dando jus à bondade de Deus, aqueles raios só podem ser interpretados como sinal da sua inconformidade, menos pelo Papa reformar-se de Deus, mas pelos católicos tardarem a despachar-se do demónio!

 

 

12 de Fevereiro 2013

Arouca

Ver também: “Álvaro Couto