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Um diluvio de artigos foi rapidamente posto em circulação com o objectivo de defender a intervenção militar francesa no Mali. “The crisis in Mali: Will French Intervention Stop the Islamist advance?”, por exemplo, demonstra que os velhos truques são sempre os melhores e elege a desgastada narrativa da “guerra contra o terrorismo” como fio condutor.

A Time clama que a intervenção intenta deter os “terroristas islâmicos” que querem desestabilizar a África e a Europa. O artigo afirma especificamente que:
“… Existe em França um temor, provavelmente fundado, de que o islamismo radical ameaça a França, porque a maior parte desses islâmicos falam francês e têm parentes em França (algumas fontes de informação de Paris disseram a Time que foram identificados alguns aspirantes a jihadistas que partiram de França e se dirigiram ao norte do Mali para treinar e combater). A Al Qaeda no Magreb islâmico (AQMI), um dos três grupos que integram a aliança islâmica malinense e proporciona à organização a maioria dos seus chefes, disse que a França, enquanto representante das potências ocidentais na região, é o principal objectivo de futuros ataques”.

Em contrapartida a Time decidiu não informar os seus leitores de que o AQMI está estreitamente vinculado ao Grupo Líbio de Combate contra os Islâmicos, em cujo nome a França interveio na invasão da Líbia em 2011, proporcionando-lhe armas, treino, forças especiais e uma colaboração aérea de grande importância no apoio que lhe prestou para derrubar o governo líbio.

Se remontarmos a Agosto de 2011, Bruce Riedel, do think tank da Brookings Institution financiada pelo cartel de empresas monopolistas, escreveu: “a Argélia cairá proximamente”. De onde se depreendia que o previsível triunfo na Líbia entusiasmaria os elementos radicais argelinos, especialmente os de AQMI. Entre a violência extremista e a perspectiva dos ataques aéreos franceses, Riedel esperava ver cair o governo argelino. Para além disso Riedel sublinhava ironicamente que “a Argélia manifestou a sua preocupação em relação ao problema da Líbia, dado que poderia desembocar no desenvolvimento de um novo porto de abrigo e santuário de Al Qaeda e outros extremistas jihadistas”.

De modo que podemos agradecer à OTAN, porque é exactamente nisso que a Líbia se transformou, num santuário da Al Qaeda patrocinado pelo Ocidente (A western sponsored sanctuary for Al Qaeda). A cabeça-de-ponte da AQMI no norte do Mali e agora a implicação directa da França, que conduzirá inevitavelmente o conflito a alastrar ao território argelino. Devemos aqui recordar que Riedel foi um de los autores do texto encomendado ao think tank, ¿Wich Path to Persia? que conspira abertamente no sentido de armar outra organização identificada como terrorista pelo departamento de Estado dos EUA, o Mujahidin-e Khalq (MEK) que semeia conflitos no Irão e ajuda a derrubar o seu governo. Isto demonstra a conspiração para utilizar organizações claramente terroristas, incluindo aquelas identificadas como tal pelo Ministério de Assuntos Exteriores estado-unidenses, com o objectivo de que funcionem como apoios à concretização da agenda da sua política externa.

O analista geopolítico Pepe Escobar identificou uma relação mais ou menos directa entre o grupo islamita que combateu na Líbia e o AQMI num artigo intitulado “Como chegou a Al-Qaeda ao governo em Trípoli”, publicado em el Asia Times:
“Crucialmente e ainda em 2007 o então número dois de Al Qaeda, Zawahiri, tinha anunciado oficialmente a fusão entre o grupo islamita líbio e Al Qaeda no movimento AQMI. De modo que desde então, para todos os aspectos práticos, o Grupo Islamita Combatente Líbio e a AQMI se converteram num só sob a direcção de Belhaj”.

Belhaj, ou seja Hakim Abdul Belhaj, líder do grupo islâmico líbio, dirigiu o derrubamento de Kadhafi com apoio incondicional da OTAN, em armas, financiamento e um reconhecimento diplomático que teve o efeito de afundar o país numa interminável guerra civil entre facções tribais. Esta intervenção teve igualmente como epicentro da rebelião a cidade de Bengasi, que se separou de Trípoli para se converter-se num “emirato semi autónomo”. Na última campanha viu-se Belhaj a movimentar-se na Síria, onde reside, na fronteira turco-síria pedindo armas, dinheiro e combatentes para a chamada “Armada Síria Libre” (ASL) sempre sob os bons auspícios e o incondicional apoio da OTAN.
A intervenção da OTAN na Líbia reanimou a organização Grupo Islâmico Combatente Líbio, assinalada como terrorista e filiada a Al Qaeda. “Combateu anteriormente no Iraque e no Afeganistão e na actualidade dispõe de combatentes, armas e dinheiro procedentes da OTAN, desde Mali, a oeste, até à Síria, a leste. O “califado mundial” com o qual os neoconservadores há dez anos assustam as criancinhas ocidentais está a tomar forma através das maquinações que saem da aliança entre os EUA, a Arabia Saudita e Israel, bem como do Qatar, e não do “Islão”. Na realidade, os verdadeiros muçulmanos vêm pagando um pesado tributo ao lutar nesta “guerra contra o terrorismo financiada pelo Ocidente”.

O Grupo Islâmico Combatente Líbio, que invade o norte da Síria com armas, dinheiro e apoio diplomático francês, e tudo por conta da tentativa da OTAN de mudar este país, fundiu-se oficialmente com Al Qaeda em 2007, no centro de combate contra o terrorismo da Academia militar de West Point (Combating Terrorism Center, CTC).

Por outro lado o CTC, a AQMI e o CIGL não partilham só princípios ideológicos, mas também estratégicos e tácticos. As armas recebidas pelo grupo líbio foram transferidas para a AQMI através das porosas fronteiras saharianas e encontram-se actualmente no norte do Mali.
Efectivamente, a ABC News, no artigo “Al Qaeda Terror Group: We Benefit from Libyan Weapons” informou que “Um importante membro de um grupo terrorista associado infiltrado em Al Qaeda declarou que a organização poderia ter adquirido alguns milhares das poderosas armas que faltavam quando se instalou o caos generalizado na Líbia, o que confirma os receios, já de há muito, de alguns oficiais ocidentais”.
“Nós temos sido um dos principais beneficiários das revoluções no mundo árabe” disse na quarta-feira um dos chefes de AQMI, Mokhtar Belmohktar, à agência de imprensa mauritana ANI : “No que concerne às armas líbias, é algo de natural em tais circunstâncias”.

Não é simples coincidência que ao acabar-se o conflito na Líbia tenha surgido outro no norte do Mali. Faz parte de um novo desenho geopolítico premeditado que começou com a revolução líbia e a partir daí, utilizando-a como trampolim, se centra na invasão de outros países como o Mali, a Argélia e a Síria, por meio de terroristas fortemente armados, treinados e financiados pela OTAN.

É provável que a intervenção francesa faça sair do norte de Mali a AQMI e os seus sócios, mas é quase seguro que se retirarão organizadamente para a Argélia. A Argélia foi capaz de deter a subversão nos começos da “Primavera árabe” criada pelos EUA (US-engineered “Arab Springs”) em 2011, mas não escapou à atenção do Ocidente, que está a tratar de transformar a região instalando-se em Africa para desalojar Pequim e Moscovo, usando uma esquizofrénica rede política, colocando em jogo os terroristas para provocar um casus belli e ter assim um pretexto para invadir, e ter igualmente à sua disposição, para o poder fazer, uma fonte mercenária quase invencível.

Original em: http://www.mondialisation.ca/redessiner-lafrique-les-etats-unis-appuient-al-qaida-au-mali-la-france-vient-a-sa-rescousse/5319230

Note: Tony Cartalucci is a geopolitical researcher and writer based in Bangkok, Thailand. His work aims at covering world events from a Southeast Asian perspective as well as promoting self-sufficiency as one of the keys to true freedom