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franciscoÉ comum na quadra que vamos entrar fazer votos de um novo ano próspero. Este ano, porém, ninguém crê que essa seja, de facto, uma possibilidade real. Teremos ano novo e vida velha. Vamos continuar a apertar o cinto, a contar cada euro e cada cêntimo, a ver onde podemos cortar um pouco mais, enfim, a sobreviver com a maior dignidade possível.

A contestação social acontecerá, mais organizada ou menos organizada, à medida que os portugueses forem sentindo a diminuição do rendimento, por via do “saque fiscal”, do desemprego, do aumento da electricidade, do gás, dos combustíveis, das portagens, das taxas e custos dos serviços públicos, neste caso a troco de cada vez menos (e piores) serviços.

Quando saírem os primeiros dados da execução orçamental e se constatar que os resultados da austeridade são, afinal, piores do que o esperado, a discussão andará em torno de uma tal “Refundação do Estado”, ou seja, mais cortes naquilo que o Estado ainda retribui aos cidadãos pelos impostos pagos, ou mais PPP (de tão boa memória há que dizê-lo), ou mais impostos.

Para esta ópera bufa continuaremos a ter os actores do costume, encenando as costumeiras guerras de alecrim e manjerona:

– uma cisão cada vez mais iminente entre PP e PSD que, pena nossa, nunca se concretiza, segundo dizem por imperativos patrióticos, não podia ser doutro modo;

– um PS multipolar, quiçá pessoano, ora de esquerda para fazer cair o governo, ora troikista para o manter, ora, na melhor síntese guterrista (com menos jeito é certo), nem de esquerda nem de direita, antes pelo contrário;

– um Presidente da República,  tão manhoso quanto os outros, mas vendendo uma imagem de político diferente – os tão na moda (a)políticos e (anti)políticos -, que com silêncios, discursos redondos, meias tintas e jogadas de bastidores vai sendo  seguro de vida e  pilar do governo.

A questão política que se coloca é, contudo, simples:

– É possível esta política resultar ou, então, no quadro da troika construir uma alternativa?

A resposta é, também, simples:

– Não, não é!

O que é difícil é a assunção de uma política alternativa, ao mesmo tempo patriótica e de esquerda. E é difícil porque implica a ruptura com o poder da UE, com os monopólios que a dominam e, cá na terra, a ruptura com os monopólios que asfixiam a economia nacional.

Não se pode pedir a quem tem acarinhado, protegido (se calhar representado) esses interesses que assuma agora o resgate de Portugal da troika, a recuperação para o país de sectores e empresas estratégicas e a devolução aos trabalhadores e pensionistas dos rendimentos e direitos roubados… a não ser … que o povo os obrigue a mudar de opinião! 

in “Discurso Directo” a 21 de Dezembro

ver também: “Francisco Gonçalves”