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A vitória de Hugo Chávez nas eleições presidenciais venezuelanas é uma excelente – mas não inesperada – notícia. Confirma o curso da revolução bolivariana. Dá novo ímpeto aos processos progressistas na América Latina, depois dos golpes de Estado patrocinados pelos EUA nas Honduras e no Paraguai. Confirma um amigo precioso dos países e governos anti-imperialistas do planeta, alvos de guerras e operações de desestabilização e agressão pelos imperialismos norte-americano ou europeus. O meio milhão de votos no PCV reforça os motivos de alegria.

Foi particularmente feroz a campanha mediática a partir do exterior, visando dar à oposição a força que lhe falta no seio do povo venezuelano e tentando criar as condições para que, caso a vitória nas urnas tivesse sido menos expressiva, pudesse ser desencadeado um dos já clássicos golpes de Estado imperialistas disfarçado de «revolução colorida». Na vizinha Espanha foram ultrapassados todos os limites. No próprio dia das eleições, o «conceituado» El País publicava uma «reportagem» destilando ódio. Traçando um quadro apocalíptico da Venezuela (incoerente com os resultados eleitorais e o entusiástico apoio de massas confirmado durante a campanha) concluía afirmando que «nas urnas enfrentam-se hoje dois projectos de futuro para a Venezuela: a via bolivariana do autoritarismo populista ou a recuperação dum sistema democrático e liberal». Para compreender o que entende o El País por «sistema democrático e liberal» basta ler o editorial desse mesmo jornal no dia 13 de Abril de 2002, no rescaldo do golpe militar que derrubou da presidência (por poucos dias) o democraticamente eleito Chávez. Ufanos com um golpe militar na melhor tradição franquista, os editorialistas escreviam: «Apenas um golpe de Estado conseguiu derrubar Hugo Chávez do poder na Venezuela. A situação chegara a tal grau de deterioração que este caudilho errático recebeu um empurrão. O exército, incitado pela rua, pôs fim ao sonho duma retórica “revolução bolivariana” encabeçada pelo ex-golpista que ganhou legitimamente as eleições para se converter, a partir do poder, num autocrata perigoso para o seu país e o resto do mundo». E, numa amostra do ódio típico das potências coloniais pelos dirigentes dos povos que resistem à colonização (e por isso são «perigosos para o mundo»), o El País incitava a um ajuste de contas: «Seria bom que Chávez e alguns dos seus colaboradores detidos prestassem contas perante os tribunais do seu país pelos seus desmandos autoritários e corruptos». Dez anos depois do «golpe democrático e liberal», Chávez continua a vencer eleições que até o ex-presidente dos EUA Carter considera «os melhores processos eleitorais do mundo» (Guardian, 3.10.12). Mas o El País prefere a «democracia liberal» existente em Espanha – onde se tritura o povo a bem da banca e onde o chefe de Estado não foi eleito, mas sim escolhido pelo golpista, fascista e assassino Franco. Ou a «democracia liberal» da UE, que impede que os povos se pronunciem sobre o mal-fadado «processo de integração» e quando não o consegue evitar ignora olimpicamente os resultados – ao contrário de Chávez, que prontamente reconheceu a sua única derrota eleitoral em 14 anos, no referendo constitucional de 2007.

O ódio pela revolução bolivariana tem explicação, e ela reside na natureza de classe do poder nas potências imperialistas. A classe dirigente espanhola foi das que mais arrecadou com a miséria e destruição dos anos de fúria neoliberal na América Latina. E hoje vê os seus sonhos neo-imperiais destroçados pela libertação latino-americana e a crise da UE. A Venezuela não é uma presa qualquer. Segundo um estudo publicado este ano pela petrolífera inglesa BP, é tão só o país com as maiores reservas petrolíferas mundiais – cerca de 18% do total mundial – tendo já ultrapassado a Arábia Saudita (Guardian, 6.10.12). Bem gostaria o imperialismo de criar uma nova Líbia nas Caraíbas. Mas o povo venezuelano derrotou no domingo os planos dos imperialismos dos EUA e da UE.

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2028, 11.10.2012