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Cavaco Silva e Passos Coelho exibiram esta semana a fibra de que são feitos.

Cavaco, do alto da sua Presidência, decretou que «nós não podemos desaproveitar este [o mar], que é um dos mais importantes recursos naturais que nós temos»,acrescentando que «eu considero que a exploração do mar deve ser um verdadeiro objectivo estratégico nacional».

Só é pena que, quando foi primeiro-ministro de Portugal, considerasse exactamente o contrário e promovesse a destruição da nossa frota pesqueira através de chorudas «compensações» dadas aos armadores pela UE, que, naturalmente, pretendia controlar as nossas águas territoriais – as segundas mais vastas do planeta – e, de caminho, liquidar a nossa competitividade pesqueira. Tudo isto Cavaco aplaudiu então, declarando Portugal um «bom aluno» dos ditames de Bruxelas e gabando-se de estarmos «no pelotão da frente» nessa aprendizagem de submissão.

Agora, que tudo está consumado e a nossa independência económica manietada pela UE, Cavaco debita que a exploração do mar deve ser o nosso «objectivo estratégico». Não admira que o homem se gabe de ser não sei quantas vezes «mais sério» do que o comum dos mortais….

Quanto a Passos Coelho, em menos de um ano pintou um tríptico sobre si próprio.

É claro que a alusão ao tríptico é pura retórica. Obviamente, ninguém poderá acusar o homem de possuir uma gota que seja da arte de Nuno Gonçalves. Aqui, em facto, não há génio que se lhe aponte.

Mas o tríptico aí está, nas três partes que o definem, a última das quais foi há dias produzida, quando Passos classificou o desemprego como uma «oportunidade» para «mudar de vida».

A resposta a esta barbaridade deu-a um desempregado à televisão, afirmando, de voz embargada, que «o senhor primeiro-ministro não deve ter ninguém desempregado» na família ou nos amigos, para dizer uma coisa tão chocante, perguntando ainda: «Mudar de vida para onde, com tanto desemprego?».

Recuando um pouco no tempo, temos os restantes «painéis».

O segundo, recomendando aos desempregados – sobretudo jovens – que «emigrassem».

O terceiro, invectivando os mesmos desempregados – a quem identificou, salvo erro, pelos que «fazem queixas» –, chamando-lhes «piegas».

Aconselhar os desempregados a «emigrar» para sobreviver é coisa que ocorrerá, quiçá, nas associações caritativas que por aí andam a aconselhar resignação e fé em Deus a troco de uma malga de sopa, mas nunca a um primeiro-ministro em funções. Fazê-lo, é negar as mais fundas confianças que devem circular entre o Estado e os cidadãos, é vilipendiar o País e ultrajar o próprio cargo. De primeiro-ministro.

Quanto a chamar «piegas» aos que protestam e reclamam, dá o traço final e completa o tríptico.

Nele se enlanguesce, em corpo inteiro, um «menino-bem» que circulou pela vida sem privações nem dificuldades, decerto amparado pelos suaves mimos da educação burguesa mas, sem dúvida, profundamente desligado e ignorante das lutas, dificuldades e sofrimentos no quotidiano do povo que, por desgraça, continua a governar.

in Avante a 17 de Maio