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– Só quem mora no convento, é que sabe o que lá vai dentro!

Ia começar uma crónica centrada no convento, depois logo se via o que isto ia dar, mas a praça bem perto, mudou-me a direcção da esferográfica. Tinha aqui à mão o Nuno Brito, a quem fui visitar à sua casa junto à praça. O caminho do texto seria sobre o que faláramos ali, à janela, enquanto íamos olhando para o Convento: Fátima, exorcismos, Heidegger, Lili Caneças (não lembra ao diabo, mas lembrou-se ele), das antigas namoradas, e fazíamos intenção de seguir por aí fora, se ele não fosse interrompido pelo toque do telemóvel, que acabou por o levar dali por uns instantes.

Guardei a conversa a manhã inteira para a enfiar no papel e eis, afinal, o que conservo: o que me aparece, já depois da saída repentina do Nuno, é o alvoroço no seio de um grupo de pessoas lá em baixo na Praça Brandão Vasconcelos, olhando para o chão com ar preocupado, cuja terra revolvida parece atingida por um achado estranho

– Senhor Presidente, acabámos de descobrir este esqueleto humano. Afinal, a existência aqui de um antigo cemitério, não é nenhum mito nem nunca foi trasladado!

Ante o grupo o presidente parece sonhar com um dilúvio de fantasmas. Fala, enquanto estende os seus acesos braços para o ar

– Mito ou não, esta coisa de esqueletos já é um autêntico pesadelo a assombrar-me dia e noite!

A partir de certa altura, um dos arqueólogos baixa-se para apanhar um alfinete de mortalha junto ao esqueleto. Um outro colega apalpa-o, respira-o. Parece estar ouvindo o cadáver. Os dois cientistas são quem tenta lavrar o seu sentido. Mas é o padre – também presente – quem expande a sua vigília

– Seja como for, trata-se de um defunto. Assim sendo, por mais antigo que seja, estamos a falar de um cristão que terá tido nome e família. . .

e o padre a aumentar o pulsar daquela existência humana como se o cadáver resistisse ainda ao longo acorde do tempo. Os arqueólogos concordam

– Absolutamente. Há que saber quem é e a quem pertence!

mas o presidente, com os azeites e voltando a estender para o céu os acesos braços, não estava, para aí,  virado

– Quero lá saber se é Zé ou Manel, até podia ser o D. Fuas Roupinho! Nesta terra só importa um nome – Progresso! Portanto, também não é este tipo que vai parar as obras nesta praça! 

e, novamente, voltou-se a ouvir o ruído das máquinas a abalar o chão da velha praça. Neste efeito, o esqueleto estremece, ou por causa das máquinas ou porque se afadigou a escutar os comentários daqueles homens no seu ouvido. Seja como for, lá sentiu que não havia modo de arranjar sossego. É aqui que começa, de repente, o calafrio generalizado: no instante do estremecimento do cadáver, este libertou-se da sua sepultura e, olhando, olhando a luz,  rugiu mesmo

– Outra vez a vida!

É aí, então, que eu (ó pernas para que te quero) fujo dali a sete pés, enquanto dentro de mim aquele zombie ou lá o que era (sem que me apercebesse de início, nem ainda hoje), aumentava, precisava-se, tornando-se real, com carne e cheiro e vida e alma. Sossegado, sossegado, só minutos depois de me fechar em casa, onde a minha mulher, segurando-me com as palmas abertas, lá ia procurando acalmar-me

– Ó homem, estás branco como a cal, até parece que viste um fantasma!

Sinceramente, custando-me confessar que estive a ponto de chorar pela vida de um esqueleto, só lhe disse então o que, hoje, vos afirmo

 – Só quem mora na praça, é que sabe o que lá se passa!

Arouca, 23 de Março de 2012

Álvaro Couto