Inicio hoje a minha correspondência regular nesta coluna. Espero honrar o  nome – 4 ângulos -, isto é, trazer aqui um outro olhar, um outro ângulo de análise da vida pública. Por ser o primeiro texto, carrega uma simbologia especial. Escolhi como tema o endividamento, marca deste tempo, problema global e local, do sistema e do país … e, também, do município.

Comecemos pelo princípio, pela origem do problema. Segundo um homem do topo do sistema, Barack Hussein Obama, foram três as razões para as famílias das classes médias americanas terem mantido o nível de vida nas últimas décadas do século XX: o emprego feminino, o 2º (e 3º) emprego e o crédito fácil.

Do crédito fácil – enquanto substituto da melhoria salarial e negócio da banca – à dívida (difícil) foi um instante. Na União Europeia, com a chamada crise da dívida soberana e a intervenção da troika nos países ditos periféricos, chegou-se, em particular nestes países, a um beco sem saída.

A dívida  cresce, os cortes sucedem-se, a recessão e as dificuldades para pagar a mesma aumentam. A dívida grega, desde que a “ajuda” começou, não parou de aumentar. A dívida portuguesa, segundo as simpáticas estimativas oficiais, após a “ajuda” vai ser maior do que quando esta começou. Por isso, vão-se suceder os empréstimos para pagar dívidas e os cortes nos rendimentos dos cidadãos. Aonde vamos parar?

Cá por Arouca, tendo o actual presidente da Câmara “herdado” uma gestão autárquica sem investimentos de vulto mas também sem dívidas, fez muito bem em avançar com alguns projectos, cujo exemplo mais paradigmático é a rede escolar do 1º ciclo, até porque a dívida não é toda má. Aquela que traz proveitos económicos e/ou sociais é boa para a comunidade.

No entanto, com o tempo foi tomando opções que levaram a um endividamento crescente – os 5 milhões de que se fala – sem cautela na análise do binómio utilidade da obra / custos futuros. É disso exemplo o sobredimensionamento das escolas do 1º ciclo em relação à Carta Educativa e a intervenção na Praça Brandão de Vasconcelos. Não acrescentam mais valias económicas ou sociais, são, portanto, dívida má.

A obra da Praça, com os seus espelhados taipais, as radiosas imagens do futuro, a informação  ausente (do início e fim da obra, seu custo e fontes de financiamento), esconde, de olhares indiscretos, o que sai das suas entranhas. Perdida a Estrada é  esta, agora, a obra do regime – nada pode obstaculizar a sua conclusão a tempo da consagração prevista.

Entretanto, há investimentos que não vão ser feitos (se for o caso do do rio Paiva, ainda bem, há que dizê-lo), há serviços que não vão ser prestados. É que feita a obra, útil ou inútil, a dívida, essa, é para pagar.

in “Discurso Directo” a 24 de Fevereiro de 2012