Etiquetas

, , ,

I

No prédio em frente há uma única luz acesa, madrugada alta.  Dentro de casa, uma ventoinha está sempre a rodar.

Reparo muitas vezes nessa luz, a única luz acesa, já todas as televisões se apagaram, a vila toda dorme. Quem habitará a casa da luz tardia?

Uma vez por outra pressinto um vulto breve, fugidio. Há roupas de homem na corda junto à janela iluminada, mas é tão tarde.

Quem quer que ali viva não corre persianas para aconchegar a vigília ou o medo do escuro. A janela iluminada está aberta, o ar empurrado pela ventoinha embala as cortinas, um vulto breve cruza a sala, terá pousado na mesa de cabeceira um romance de cavalaria, terá estado a navegar na Internet?

Eu próprio saído da leitura labiríntica de um livro, mais três ou quatro horas e o despertador vai tocar, espreito a noite da rua e lá está a mesma única luz acesa, há-de estar ainda acesa quando o despertador tocar, às sete da manhã, a mesma única luz acesa no prédio em frente. E, de novo, pressentirei um vulto, os movimentos então mais apressados, provavelmente alguém que prepara uma nova jornada. Na rua, soam o fecho da portada do Arouquense, logo seguido de uns passos rápidos (para aí o Toninho ou o Zé Fontes), até que alguém põe em marcha um automóvel.

Finalmente, esta noite de Setembro, por volta das três da manhã quando, interrompido o meu labirinto literário, fui à cozinha fumar um cigarro e espreitei distraidamente para o luar no céu, lá estava a luz acesa. Lá estava, desta vez mais nítido, o vulto até agora indefinido, quase sempre pressentido. Agora nítido. A janela escancarada. O homem à janela, debruçado para a noite quente, sufocadamente quente, e uma leve impressão de o conhecer de qualquer lado. Reparo na fotografia que está na capa do meu livro. Olho para o homem pendurando mais roupa na corda. Eis quando, verificando a semelhança entre as duas caras, deixo soltar a voz no silêncio da noite

– Olha, é o mesmo tipo!

e fico a pensar cá dentro como é que é possível estar ali – o Nuno Brito.

II

Ali está o homem que pendura roupa numa corda. Aqui está o poeta que pendura a vida num livro.

E a coincidência espantosa desta criatura desconhecida, mas que é o principal alvo da minha reflexão literária desde há alguns dias, estar mesmo à minha frente em carne e osso.

Este é um momento importante para mim que comecei a filiar a minha admiração literária por Nuno Brito pela afinidade de uma simples frase

– Não sou um escritor, sou um navio!

o que foi suficiente para fazer-me sentar, ao longo deste tempo, também numa cadeira de baloiço, no convés desse navio.

Podemos dizer, então: o livro Creme de la Creme nasce no convés de um navio. Um autêntico transatlântico que traz de volta a Arouca, vindo do Porto, um dos embarcadiços da minha marinha privada, que não tem muitos heróis. Lá está ele agora, de auréola, com a corda na mão e o mais da sua roupa interior ali pelas redondezas. Se alguém, neste momento, lhe chegasse perto notava-lhe o afecto e o pudor do sorriso naquele rosto de pugilista. Uma cara ajustada perfeitamente (tenho uma especial predilecção pelo perfeitamente) a qualquer escritor digno desse título, já que no escrever há também muito de combate de boxe.  Gosto de pensar que terá sido assim que o meu livro começou na cabeça de Nuno Brito

– Cinco minutos depois das três da manhã, que canta o mar no 2º andar daquele prédio? Que odores empurra o vento sobre aquele navio?

e falo por mim: ando há oito ou dez dias desligado da terra. Um autêntico período rico de convivência (também tenho uma particular predilecção pela palavra autêntico). Sem parlapiés, poucas histórias (até podia não haver nenhuma), apenas um coração aberto à vida, um lutador   a desferir, na meia distância, golpes e socos certeiros em cada página. Numa viagem que é, ao mesmo tempo, um prazer saboreado (parece um paradoxo, mas não é!). A gente lê e pode até não concordar com o estilo ou a estrutura ou os tiques ou o que seja: no entanto temos de lhe admirar o sentido de humor, a ternura escondida, a mão eficaz, a contenção narrativa (embora, às vezes, ainda devesse ser mais), a capacidade de entender o por dentro das obras (as dele e as dos outros), sem azedume, nem invejas. De repente, atraca num cais qualquer e desce connosco pela prancha do navio e estamos já em outro continente. Acontece que esse outro continente pode ser o norte e o desnorte de Nuno, pode ser o nosso próprio país, contemplando-se entre seres oprimidos, fundindo-se nas fábricas de segunda-feira, a cada viagem ganhando contornos de um outro país, trocando a cinzenta sobrevivência por uma outra liberdade.

Eu que ainda passo a vida a cruzar equadores no convés de antigos paquetes ou veleiros, talvez perceba o que este homem quer dizer, aos trinta anos,

Só preciso de calor, e não de Literatura

enquanto vai pendurando a roupa numa corda e a vida num papel a merecer mais leitores. É da minha janela então que, de novo interrompo o silêncio da noite, para o aplaudir.

Arouca, 16 de Setembro 2011