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O Conselho Económico e Social das Nações Unidas no relatório de 2011 exige da Alemanha um conceito consistente de combate à pobreza. Entre outras medidas pede-se ao governo de Ângela Merkel que assegure às crianças de famílias numerosas o acesso a alimentos suficientes. Também na Alemanha, na sequência das políticas de acumulação capitalista, uma parte cada vez mais significativa da população está ser atirada para a miséria. O número de pessoas a viver abaixo do limiar da pobreza é de mais de 11 milhões, cerca de 14,5 por cento. Mas o dinheiro não desapareceu. Só mudou de mãos. O número de milionários alemães que em 1999 se situava nos 365 000 irá perfazer este ano cerca de um milhão. As suas fortunas aumentaram na última década 51% enquanto os rendimentos do trabalho perderam em média 2,5%. Nos grupos salariais mais baixos, segundo um estudo do Instituto Alemão de Investigação Económica (DIW), a quebra nos últimos 10 anos chega a atingir 22%. Por isso, é de um cinismo extremo a chanceler e o grande capital acusarem os trabalhadores e os povos de viverem acima das suas possibilidades, sabendo-se que eles são vítimas dos efeitos devastadores das políticas de roubo, de desastre económico, social e laboral há anos impostas pelo directório das grandes potências da União Europeia comandadas por Berlim.

O diário de Düsseldorf «Handelsblatt» (19/20.08.2011) que se subintitula «jornal económico e financeiro da Alemanha», num artigo que ocupa toda a primeira página rejubila porque «a fraqueza da Europa é a força da Alemanha» e porque «hoje não há dúvida de que a Europa não pode ser grega, italiana ou mesmo francesa» (mas apenas alemã). E aquele farol do pólo imperialista germânico prossegue salientando que «a Alemanha tem de possibilitar a Europa. Mercado livre, união monetária, aprofundamento da integração política correspondem aos interesses alemães. Mas a Alemanha não deve dissolver-se» neste processo. «A casa europeia é demasiado frágil para nós amanhã podermos lá morar». Além disso «o ministro europeu do tesouro não está em Bruxelas. Está em Berlim. O verdadeiro chefe do governo económico não é o Sr. Van Rompuy, mas o ministro das finanças alemão. Nunca como hoje os interesses alemães e europeus se confundiram tanto. O caminho para a Europa ou passa por Berlim ou não conduz a lado nenhum.»

É para colaborar nesta farsa de cariz colonial, neste projecto de domínio imperialista, trair os interesses de Portugal, do povo e dos trabalhadores portugueses que Passos Coelho, repetindo o ritual de Sócrates, foi a semana passada a Berlim prestar vassalagem, receber ordens e as habituais festinhas no lombo da chanceler Merkel. Em Portugal os Migueis de Vasconcelos não desapareceram com a fuga da duquesa de Mântua para a Espanha nem com o fim do domínio dos Filipes.

Há anos que o PCP através de todos os seus secretários-gerais e dos documentos do Comité Central tem vindo a alertar para o caminho de desastre nacional trilhado pelos partidos da troika, PS, PSD e CDS-PP. Mais uma vez da tribuna da Festa do Avante! Jerónimo de Sousa explicou que «o que está em curso é nada mais nada menos que uma gigantesca fuga em frente, cuja única orientação é salvar os lucros do grande capital, defender os interesses das grandes potências, com destaque para a Alemanha, e tentar salvar o Euro por via da imposição de relações económicas e políticas de tipo colonial no espaço da União Europeia.»

Mas o Secretário-geral do PCP avisou também a reacção nacional e internacional de que o PCP não cairá «nas ratoeiras do discurso de “mais União Europeia para ultrapassar a crise” e que vamos intensificar a luta por uma outra Europa dos trabalhadores e dos povos. Uma Europa que defenda a democracia, a justiça social, a soberania dos povos, a real cooperação e solidariedade entre estados soberanos e iguais em direitos e deveres.»

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 1971 de 8.09.2011