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As comemorações oficiais do 10 de Junho tresandaram a bafio. Nas palavras do senhor Presidente Cavaco, em algumas das figuras condecoradas, no discurso de António Barreto e na sua declaração de guerra contra a Constituição de Abril.

1. Com razão ou sem ela, aquela festa pareceu-me desenterrada de tempos distantes. Era, em Castelo Branco, a celebração do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades, e muito apeteceu homenagear o poeta indo a «Os Lusíadas» recordar as estrofes em que ele denunciou que «leis em favor do rei se estabelecem / as a favor do povo só perecem». Ou umas outras: «Fazei, Senhor, que nunca os admirados/ Alemães, Galos, Ítalos, Ingleses / Possam dizer que são para mandados/ Mais que para mandar, os Portugueses». E é claro que não se esgotam nestas duas breves citações as provas de que Luís Vaz, fosse ele vivo agora, não se cumpliciaria com esta sociedade dominada por criaturas cujo projecto visa fazer com que os pobres sejam ainda mais pobres para que os ricos possam continuar tranquilamente a ser ricos. Por acaso, isto de pobres e ricos faz lembrar a condecoração da dra. Manuela com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo. Bem se sabe que Cristo muito sofreu, e também que em seu nome muita coisa se veio cometendo ao longo dos séculos, pelo que por esse lado tudo estará bem. Quanto à senhora doutora, é de supor que tenha sido agraciada, à falta de outros méritos, pela hábil manobra de engenharia financeira que permitiu ao País perder mais de trezentos mil milhões de euros mediante uma operação de penhor de dívidas activas negociada com o CityGroup. É que podia ter feito pior e não o fez. Mas a questão com os pobres e os ricos é que a excelente senhora confessou um dia a sua dificuldade em distinguir uns e outros, o que parece curioso numa ministra das Finanças. Com rasgos assim, de inocência e franqueza, como aquela ideia de suspender a democracia por uns meses, é que a doutora vai decerto ficar na memória das gentes e, é claro, na História. Por isso, provavelmente, surgiu em Castelo Branco e nos ecrãs dos nossos televisores vestida «toda de branco como um lírio branco», para usar aqui, com a devida vénia, as palavras que um dia Augusto Gil usou para descrever poeticamente um bebé que saíra em passeio. E acerca do branco como cor do vestuário parece-me prudente ficar por aqui, não vá a prosa tosca deslizar para evocações inconvenientes.

2. Mas nem tudo foram brancuras na festa nacional havida em Castelo Branco. Nas palavras do senhor Presidente Cavaco perpassaram em dada altura o rubro e o negro de guerras que acontecem em paragens distantes e onde os portugueses estão presentes, presumo que para que não se perca o antigo jeito de ir para longes terras, de armas na mão, civilizar o gentio. No discurso de António Barreto, uma vez mais supremo mestre-de-cerimónias da celebração do 10 de Junho, a coisa foi mais assanhada, digamos assim. Como se saberá, António Barreto é um pouco como um Vasco Pulido Valente de pêra, olhos fuzilantes e mais bem-educado. Um e outro são homens de imensos talentos que não foram suficientemente reconhecidos e aproveitados na altura própria por este ou aquele partido político, o que naturalmente lhes provocou feridas profundas. No caso do doutor Pulido, é público e notório que as feridas continuam a supurar pus e sangue, o que até provoca algumas náuseas. Quanto ao doutor Barreto, o seu estado é perceptível mas não repugna, podendo contudo indignar. Foi isto mesmo que aconteceu quando, em Castelo Branco, Barreto desembestou contra a Constituição da República que acusou de ser «anacrónica, barroca e excessivamente programática». Curiosamente, Barreto votou-a enquanto deputado à Assembleia Constituinte em 76, e então já aquele texto seria decerto barroco e excessivamente programático. De qualquer modo, porém, o mais surpreendente, se não o mais grave, é que Barreto tenha vindo fazer uma clara declaração de guerra à Constituição não apenas durante uma festa que pela sua natureza há-de ser nacional, mas também e sobretudo num momento em que todas as vozes do largo grupo em que Barreto se inclui apelam para uma aliás mítica unidade de todos os portugueses. Foi Barreto a sabotar o caminho para essa unidade, pois ele bem sabe que milhares de cidadãos defendem esta Constituição que muito custou a ganhar. Não sei se o senhor PR, se atentamente o ouviu e bem o compreendeu, ficou contente com Barreto. Sei, isso sim, que os portugueses que bem sabem ser a Constituição uma barricada que protege os seus direitos reconheceram nele um dos que iniciaram a contra-revolução. E que se mantém na mesma linha.

in diário.info