Etiquetas

, , ,

1. Nunca um Presidente da República (PR) no pós 25 de Abril de 1974 tinha ido tão longe. Em mais de 40 eleições foi a primeira vez que um supremo magistrado da nação apelou descaradamente ao voto numa determinada política. Fê-lo através de uma «mensagem ao País», no chamado «dia de reflexão». Fê-lo com base na insistência da escolha sobre «quem vai governar». Fê-lo promovendo os que se identificam com a direita dos interesses e os interesses da direita.

Mas o PR foi ainda mais longe. Afirmou, categórico, que os cidadãos que não fossem votar «não têm depois autoridade para criticar as políticas públicas». E acrescentou: «Só quem vota poderá legitimamente exigir o melhor do próximo Governo». Lê-se e não se acredita! De uma penada só exorbitou os poderes que a Constituição da República Portuguesa lhe confere. Constituição que, sublinhe-se, ele jurou cumprir e fazer cumprir.

Uma coisa, legítima, é combater a abstenção, apelando aos cidadãos para que exerçam o direito de votar. Outra bem diferente, ilegítima e inadmissível, é ameaçá-los de penalizações por exercerem um direito, que a lei lhes confere, o da abstenção.

Em ambos os casos, votem ou abstenham-se, os cidadãos têm o legítimo e pleno direito de ter opinião sobre a política que o futuro governo fará. E quanto a isso, por muito que lhe custe, o actual inquilino do Palácio de Belém nada pode fazer. Felizmente não tem esses poderes. Ninguém lhos conferiu. E, em democracia, ninguém lhos pode conferir.

O cidadão Aníbal Cavaco Silva, recorde-se, é um «homem do aparelho» do PPD/PSD. Dele disse um dos seus mais próximos colaboradores, Miguel Cadilhe, «Cavaco é como um eucalipto: provoca aridez à sua volta». Durante 18 anos dos 37 que leva a democracia em Portugal assumiu responsabilidades políticas. Dois anos como Ministro das Finanças. Dez como Primeiro-ministro (pós 25 de Abril de 1974 aquele com mais tempo em funções). Seis como Presidente da República. Tempo mais do que suficiente para que consideremos as suas afirmações como «infelizes» ou um simples «deslize»…

2. Três sondagens por dia durante a recente campanha eleitoral. Um fartote. Importa recordar o que aqui escrevemos há mais de 5 anos.

As sondagens só permitem uma previsão aproximada da realidade eleitoral, ou outra. Em todos os casos no intervalo de valores determinado pela margem de erro. E isto se for utilizado o método aleatório, amostras estratificadas, criteriosamente seleccionadas e de dimensão adequada. E métodos de inquirição fiáveis. E se os procedimentos de estimação complementares – relativos à abstenção e à distribuição dos não respondentes e indecisos – estiverem conforme à realidade em análise.

A esmagadora maioria das sondagens relacionadas com as eleições para a Assembleia da República, mais uma vez, não preenchiam estes requisitos.

O tratamento jornalístico de sondagens requer conhecimentos específicos e reveste-se de bastante sensibilidade. Os seus resultados prestam-se a várias interpretações. Uma análise incompleta e pouco rigorosa dos dados de uma sondagem pode ter consequências graves e imprevisíveis, para a imagem das pessoas, ou instituições, submetidas a escrutínio. Além de enganar ou confundir aqueles que não tenham a curiosidade de verificar, em pormenor, esses dados.

Mais uma vez nada disto foi tido em atenção. E a Entidade Reguladora continua a assobiar para o lado.

3. Dizem os livros que falácia consiste em partir de uma afirmação falsa, intencionalmente, e, a partir dela, pretender retirar conclusões verdadeiras.

Os comunistas defendem a política do «quanto pior melhor», escrevem e dizem uns. Santa ignorância! Já em 1846 (há 165 anos!!!) um jovem chamado Karl Marx, num livro com o título «Miséria da Filosofia», desmistificava esta tese. E desde essa data milhares e milhares de páginas foram escritas a desmontá-la. Será que nunca mais aprendem? Ou fazem de propósito?

Os homens da troika «foram os grandes vencedores da noite: 79,4% dos eleitores votaram nos partidos que assinaram o memorando», dizem e escrevem outros. E eu a pensar que eleitores e votantes eram dois conceitos distintos…

Especialista em Sistemas de Comunicação e Informação

In jornal “Público” – Edição de 10 de Junho de 2011