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Nas recentes eleições, mais uma vez, ficou a nu a falácia do “4ª poder”. A comunicação social, dominada pelos grandes grupos financeiros e económicos, não é mais do que o servil braço mediático dos seus interesses. E isso inclui o dito “serviço público”.

1. Terminara o acto eleitoral, estava apurada a quase totalidade dos resultados, os diversos líderes partidários faziam as esperadas declarações finais. Na RTP, a de serviço público, José Rodrigues dos Santos, eufórico, comandava a emissão. É certo que em Rodrigues dos Santos há sempre uma certa sugestão de euforia como que injectada no peculiar estilo de pregoeiro que o caracteriza. Na noite do passado domingo, porém, dir-se-ia que uma felicidade lhe transbordava pelos poros, o que aliás seria apenas lá com ele se, para nosso mal, não estivesse ele «no ar», isto é, em nossas casas.

2. Ora, aconteceu que a dada altura, ouvida já a declaração com que José Sócrates assumiu a derrota, era a vez das declarações de outros líderes partidários e a RTP, tal como de resto as outras estações, com equipas de reportagem instaladas nas respectivas sedes, estava em perfeitas condições para não as deixar escapar. Lamentavelmente, deixou, pelo menos em parte. Quando Jerónimo de Sousa começou falar a partir da Soeiro Pereira Gomes estava José Rodrigues dos Santos muito interessado a conversar, nos estúdios, com um pouco conhecido Magalhães que debitava análises de conteúdo óbvio acerca dos resultados conhecidos. Desse enlevo do jornalista terá resultado não ouvirmos pelo menos as frases iniciais do secretário-geral do PCP. Um pouco mais tarde, não muito, ainda Jerónimo de Sousa falava e a RTP deu sinal de já estar farta de ouvi-lo: a ligação foi cortada, voltámos aos estúdios e ao Magalhães. Idêntica saciedade aconteceu uns minutos mais tarde, quando da declaração de Francisco Louçã de quem ouvimos, porém, o início. Será inevitável presumir que para a RTP as palavras de Jerónimo de Sousa não tinham «interesse jornalístico», tendo feito o sacrifício de suportá-las durante algum tempo apenas por dever de ofício cumprido um pouco abaixo dos serviços mínimos. Contudo, parece mais que provável que cerca de quinhentos mil portugueses votantes na CDU estivessem, sim, mais interessados no que Jerónimo de Sousa diria que nas sábias sentenças do Magalhães, por mais perito que ele seja. O facto é que Rodrigues dos Santos, ou alguém que por ele decidiu amputar a declaração de Jerónimo de Sousa da sua parte final, cometendo uma arbitrariedade que mais que com um acto de censura se pareceu com uma provocação. Repare-se: a CDU não é uma força política irrelevante, é a quarta força política representada na AR, crescera um pouco em percentagem de votos e em número de deputados, nem sequer se podia insinuar que havia sido derrotada e por isso seria compreensível minimizá-la. Foi isso, porém, o que a RTP e Rodrigues dos Santos fizeram. E fizeram-no em consonância com a «viragem à direita» que toda a grande comunicação social, exultante, anuncia.

3. E exultante porque ela, grande comunicação social com inevitável destaque para a TV, está entre os vencedores deste pleito eleitoral. Estava ela no combate desde há anos, dia após dia, em pelo menos duas frentes de ataque. Numa delas visava o apagamento do PCP da memória dos cidadãos, quando não optava pela sua detracção, método este já antigo e um pouco primário, mais compatível com os anos do fascismo que com as práticas democráticas, mas ainda assim não desdenhado pelos «media» lusitanos. Numa outra frente estava empenhada na demolição da imagem pública de José Sócrates, não em razão da sua prática política efectivamente direitista que a Esquerda consequente condenava, mas sim para que a sua eliminação desse lugar à subida ao poder das ambições pêèssedaicas e dos interesses que com o PSD ficariam ainda descansados. Não foi por acaso que o quase simbólico engenheiro Belmiro esteve num comício do PSD diante das câmaras de TV que perante ele se prosternaram, e que o seu jornal, que lhe custa milhões, se tornara ponta-de-lança do anti-socratismo. Recorde-se que contra Sócrates foram disparadas sucessivas acusações/insinuações que nunca foram provadas mas inevitavelmente se infiltraram na cabeça dos cidadãos, pelo que muitos deles, ex-votantes PS, desta vez terão ficado em casa, o que em parte explica a taxa recorde de abstenção. De onde a dimensão da vitória de que Passos Coelho foi o beneficiário nominal mas de que a comunicação social, dominada pelos grandes poderes financeiros e económicos, foi a mais decisiva obreira. A modéstia, ou mais provavelmente as conveniências, impedem-na de exibir os louros da sua vitória. Mas eles estão lá.

*Amigo e colaborador de odiario.info