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Por que é que, nestes mesmos últimos 20 anos, a economia chinesa tem crescido a uma média de 10% ao ano, a par das chamadas «economias emergentes» como a Índia ou o Brasil? Aí, «a globalização» já não provoca «crises»?

De há uns 20 anos para cá, o nosso «mundo desenvolvido» anda nitidamente às arrecuas.

Refiro-me aos EUA, farol deste «mundo livre», ao Japão, esse verdadeiro «tigre asiático» que, três décadas depois de ter levado com a bomba atómica norte-americana, ascenderia a segunda economia mundial, e também à Europa com a Alemanha à frente, ambas reerguidas dos escombros do nazismo para iluminarem o mundo com uma prosperidade esfusiante.

Hoje, estas luminiscências do desenvolvimento capitalista estão a braços com uma crise tão contundente, que a principal divergência está em classificá-la como «igual» ou «pior» do que a que mergulhou o sistema na crise de 1929, o famoso «crash da bolsa de Nova Iorque».

Aparentemente, tudo começaria a desabar em 16 de Agosto de 2007, quando rebentou outra não menos famosa crise – a dum tal «subprime».

Nessa nova «quinta-feira negra» o sistema capitalista entrou em colapso, com bancos e instituições financeiras de referência mundial a falirem em consequência do rebentamenteo da bolha especulativa a partir de Wall Street, em Nova Iorque, o «coração» do sistema.

A partir dessa fatídica quinta-feira de 2007 as grandes economias do capitalismo entraram em crise declarada, com os EUA do presidente Obama, na vanguarda, a injectarem doses astronómicas de capital para salvarem os bancos e o sistema financeiro dos buracos abissais abertos pela especulação sem freio em que se haviam locupletado, exemplo diligentemente seguido pelo Japão e a Europa. Com um pormenor, em todos estes casos: os grandes responsáveis pela crise ficaram intocados e impunes, continuando a ditar as regras.

E as regras aí estão, implacáveis e apresentadas como inelutáveis: o mundo «está em crise», a culpa «é da globalização», o que interessa é «ser competitivo» num tempo «dominado pelos mercados», pelo que o que importa é «combater os défices», disciplinar a «despesa pública» e cortar nos direitos sociais, desde os salários, aos horários e às regalias.

Este é o pano de fundo do actual «mundo capitalista desenvolvido» – e nem precisamos de citar os extremos de exploração que estão a ser experimentados na Grécia, na Irlanda e, em breve, em Portugal.

A explicação para isto é económica, factual e contundente: de há 20 anos para cá, as economias dos EUA, do Japão e da Europa têm sofrido recorrentes «crescimentos negativos». Porquê? «É a crise» provocada «pela globalização», repetem os do costume.

Só que não respondem a uma outra pergunta (que, deliberadamente, ninguém faz): então por que é que, nestes mesmos últimos 20 anos, a economia chinesa tem crescido a uma média de 10% ao ano, a par das chamadas «economias emergentes» como a Índia ou o Brasil? Aí, «a globalização» já não provoca «crises»?
Pois não. Porque, para aí, há décadas que o «capitalismo desenvolvido» deslocaliza todo o tipo de actividades económicas em busca de mais lucro na exploração de mão-de-obra barata, semeando os concomitantes desemprego e a miséria nos países de origem.

É aqui que está o busílis da questão – como Marx analisou e Lenine demonstrou.
A História está apenas a repetir-se.

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 1956, de 26.05.2011