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Os bancos centrais são possivelmente a instituição que actuou da maneira mais inepta e incapaz na gestão e desenvolvimento da crise actual. Já expliquei em outros escritos que deixaram que se gestassem as condições que a provocaram deixando actuar os capitais, concedendo todo tipo de privilégios e jogando sempre na equipe dos grandes proprietários, administrando a política monetária da forma que mais conviesse aos grandes detentores de liquidez.

Basta comprovar como aumentaram as desigualdades entre os rendimentos do capital e os do trabalho, ou entre os lucros das grandes empresas e a situação das pequenas e médias (que na Espanha criam e mantêm 90% do emprego) para confirmá-lo.

Nos Estados Unidos, por exemplo, os 1% dos norte-americanos mais ricos obteve 23,5 por cento dos rendimentos brutos do país em 2007, ao passo que em 1976 obtinham 9% . E nos anos do governo Bush, os 1% mais ricos da população apropriaram-se de 75% da riqueza gerada (David DeGraw, “The Economic Elite vs. People of the USA: Parte I y Parte II). 
Os dirigentes dos bancos centrais justificaram as políticas que aumentaram tanto a desigualdade como necessárias para evitar que subissem os preços, mas o certo é que permitiram que se verificasse a subida talvez mais alta da história nos preços da habitação. E em lugar de terem conseguido promover e garantir a estabilidade financeira, sob o seu mandato como instituições “independentes” (dos governos, não dos capitais privados) verificou-se o maior número de crises e perturbações da história.

Quando dúzias de economistas viam aproximar-se a antecipavam com clareza total a crise e seus efeitos desastrosos, os bancos centrais e seus governadores e directores dedicavam-se a cobrir o temporal lançando balões fora e fazendo com os bancos privados continuassem ganhando dinheiro a mão cheias.

Suas viseiras ideológicas converteram-nos em condutores cegos, incapazes de ver a realidade que está diante dos seus olhos.

Quando a crise explodiu dedicaram-se a promover medidas que não conseguiram alcançar o que deveriam ter buscado: que o crédito flua de novo para empresas e consumidores. Ainda que, isso sim, conseguiram que os bancos privados voltassem a desfrutar novamente de e lucros impressionantes e de um poder político renovado.

Algumas das medidas que adoptaram para isso foram autênticas infâmias: mudar as normas contabilísticas ou manipular provas de stress financeiro mentirosas para dissimular e ocultar à população a situação real dos bancos a que conduziu, em boa medida, a sua incapacidade e o fanatismo ideológico com que continuam a defender políticas que em lugar de salvar as economias afundam-nas ainda mais na crise.

O EXEMPLO IRLANDÊS

A última prova disso (assim como da perversidade das políticas neoliberais que comentei em outro texto: a Irlanda como exemplo ) está também na Irlanda: em Julho afirmaram que os bancos irlandeses estavam em boas condições e agora verifica-se que é preciso injectar-lhes milhares de milhões de dólares. Sem que ninguém mova um dedo para assinalar responsáveis por semelhante engano e sem que ninguém se dê por acusado. Muito pelo contrário, inacessíveis ao desalento, continuam a pontificar como se fossem donos da verdade e nunca se houvesse equivocado. Sim, são cegos mas não mudos.

Enquanto vão acumulando os erros de prognóstico e de gestão, os governadores e outros dirigentes de bancos centrais não deixam de falar, falar e falar para pressionar os governos e difundir sem descanso as receitas que os grandes poderes financeiros, insaciáveis como sempre, reclamam sem outra consideração senão a de aproveitar a ocasião para multiplicar os seus lucros.

O governador do Banco de España é um bom exemplo disso e continua a dar mostras do seu indomável espírito de serviço aos interesses privados.

Enquanto espertos economistas fazem cabriolas dialécticas e econométricas para tentar convencer a população de que as reforma das pensões que propõem deve-se a razões de sustentabilidade futura e que busca apenas melhorar o sistema, a equidade e os bem estar dos cidadãos, o governador não tem papas na língua e revela claramente a quem se trata de satisfazer com isso. Acaba de reconhecer no Congresso dos Deputados que o que procura é tranquilizar os financeiros e, sobretudo, garantir que não tenham problema para receber a dívida que se gerou pela sua própria actuação irresponsável.

Disse textualmente que “a reforma de pensões ainda que seja a longo prazo é crucial para ganhar a confiança dos mercados” e que “a vantagem da reforma de pensões do ponto de vista dos mercados é que se sabe que a capacidade de devolver dívida da Espanha é tomada a sério … e portanto dá uma confiança ao investidor… isto tomam a sério…” ( Vídeo do governador no diário Público de 23 de noviembre ).

Como disse, cegos, mas não mudos e ao contrário da maioria das pessoas, a quem se conseguiu emudecer à base de desemprego, de salários de miséria, de dívidas e de lixo televisivo.

23/Novembro/2010