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Ontem e hoje passaram por Lisboa, no Parque das Nações, muitos senhores da guerra, mesmo alguns políticos portugueses. Todos tiveram o cuidado de não olhar muito para a cidade e para os seus habitantes, sobretudo para não terem o precalço de caírem no meio de algum grupo de cidadãos – nunca se sabe! Durante dois dias inteiros, milhares de agentes policiais e militares mantiveram vários locais da capital limpos e desimpedidos, observando atentamente tudo e todos, até as folhas das árvores que caem neste outono suave e limpando mesmo cuidadosamente o cocó dos cachorrinhos dos utentes privilegiados daquele espaço. O aeroporto da Portela está pomposo e engalanado, assim como os quilómetros de relvado da alameda das Nações estão cortados e regados, com o seu arvoredo e os milhares de polícias e snipper’s armados até aos dentes, por cima de passeios e telhados, num espaço vedado à circulação automóvel. Pelas ruas da baixa lisboeta, com árvores de copa generosa, pelos parques do centro da cidade, mais polícia de viseira e de metralhadora em punho, e entrincheirados entre montras de bancos e ourivesarias, não deixa que algo possa perturbar o bem-estar dos ricos e a boa disposição dos visitantes-guerreiros de uma das mais belas cidades do mundo. Lisboa está em estado de sítio! Mas a acreditar nos próprios repórteres locais, embriagados com tamanhas presenças importantes, o estado do sítio deve-se mais à pompa e à circunstância de uma cimeira que, mesmo custando os olhos da cara a um País esfomeado, «inevitavelmente, puxará para cima o orgulho e o prestígio de Portugal». Faz-me lembrar a história que escutei, um dia, em Aveiro: era uma vez um cidadão doente, com uma apendicite aguda, torcendo-se de dor na urgência de um hospital. Foi imediatamente levado para os cuidados intensivos onde lhe pentearam o cabelo, cortaram as unhas, escovaram os dentes, fizeram a barba, vestiram umas cuequinhas de seda e deram-lhe um calmante poderoso. E todos ficaram felizes por mais algum tempo, enquanto havia festa no arraial. Em matéria de aparências, ele há cada parolo. . .!

Guerra e Paz, por estes dias, são palavras que fustigam a cidade e o mundo.  Hoje, se ainda fosse jornalista, a minha crónica desabafava primeiro sobre A Cimeira e a Cidade: que pena que  os senhores da guerra, com a ajuda prestimosa dos cronistas do reino, estivessem, durante dias a fio, desfigurando uma das mais bonitas e pacíficas cidades do mundo – Lisboa – e, cujo povo sempre primou por ser de boa paz, educado e solidário. Ser cidadão em Lisboa é arriscar-se, nestes últimos dois dias, a pegar todas as suspeitas do alfabeto. A praça Marquês do Pombal é hoje o local do pacifismo mundial, onde se concentram milhares de pacíficas aves e pacíficos humanos: no entanto, todo aquele aparato policial e informativo serve para avisar que os riachos desta manifestação pela Paz que desaguam no fundo dos Restauradores, em proveniência dos vários cantos do mundo, estão contaminados pelo terrorismo, e todo o animal que se desaltere nas suas águas, morre ou, no mínimo, será detido. Aquilo que fora uma benção de Liberdade para o lisboeta, esse espaço de avenida maravilhosa entre o marquês e a praça, tornou-se assim um inimigo mortal, uma presença cruelmente ameaçadora, por via do medo pessoal dos senhores da guerra e para gáudio dos simpatizantes de redacção, vozes de dono  e comentaristas de ocasião.

Depois, estendia o artigo para A Cimeira e a Guerra: Há dois dias que forças poderosas,  suscitando situações de conflitos bélicos em todo o planeta, disputam na sombra – de um pavilhão lisboeta – e às escondidas – da opinião pública mundial – o controle das riquezas e a supremacia dos mercados. Os senhores da guerra deixaram por conta o plano do Direito Internacional e o plano moral das decisões políticas. Ambos eram planos de urgência, implicando soluções rápidas e planetárias. Tão cedo, tais soluções não conhecerão  a luz de um novo dia, conforme é reivindicado por diversas organizações supranacionais e pelos povos vítimas da guerra. A partir desta perspectiva, esta cimeira oferece pouco a celebrar e muito a lamentar. . . não esqueçamos que a acção e a estratégia militares da Nato implicou sempre num dramático encobrimento do outro (seja ele, jugoslavo, iraquiano, ou afegão) e um acto de violência contra ele. No conjunto, a palavra “catástrofe” é mesmo a mais adequada para designar o destino daquelas populações, depois das intervenções militares da Nato, naqueles países. No entanto, nada disto  parece afectar os chefes de Estado presentes em Lisboa. As suas poses sorridentes, no final da dita reunião – com a tradicional foto de «família» de estadistas – revelam a mais despudorada e desvergonhada das concordâncias quanto ao primeiro parágrafo do Tratado da Nato: «o nosso sistema democrático está ao abrigo de toda a suspeita moral, e por conseguinte todas as nossas decisões políticas e militares são moralmente aceitáveis, por serem decisões de uma organização de defesa dos países democráticos». Daí que, desta cimeira, resulta, para já, uma primeira certeza: a democracia, sacrificada a favor da riqueza, mata. E, vai continuar  a matar.

Quantas cimeiras serão precisas mais para que sequem todas as lágrimas desses crimes cometidos ao longo destas largas dezenas de anos da Nato? Não pergunto quantas cimeiras são as bastantes para que sobre os crimes de ontem – e, de hoje – se instalem os sorrisos protocolares, os negócios de cooperação ou isso a que muitos chamam o virar da História! A paz dos estados é pouco mais que o avesso da guerra. A paz dos estados incentiva a contratação de homícidas nas suas fileiras. A paz dos estados não mata sequer a fome dos vivos. Como lhes poderá secar as lágrimas?

Perante tantos sorrisos inocentes, é inútil, pois, explicar-lhes a queixa do resto da humanidade: que estas decisões deixam de ser dignas de credibilidade desde o momento em que pactuam com planos que conduzem ao assassínio colectivo das sociedades, a começar pelos mais afastados dos benefícios da riqueza, que são também os mais próximos dos teatros de guerra e os mais vulneráveis. Pouco importa se são decisões de democracias ou de ditaduras, de estados moralmente aceitáveis ou usurpadores; toda a declaração de guerra que não contemple hoje em dia a condição humana e o seu meio de vida é moralmente inaceitável e todo o cidadão tem o dever moral de a combater. Todo o governo que não coloque como prioridade absoluta e indiscutível da sua acção e das suas decisões o valor da vida humana é moralmente insustentável. Como diria Carlos Drummond de Andrade: a civilização que sacrifica povos e culturas antiquíssimas é uma farsa amoral!

Já não sendo jornalista, é claro que não escrevi nada disto, num qualquer jornal. Quem, como eu, foi e regressou, neste sábado, no destino colectivo de um autocarro da “União”, feito de protestos e de esperanças, entre S. João da Madeira/Lisboa e Lisboa/S. João da Madeira, apenas se deixou ficar agarrado àquela jovem que pedia paz, escrevendo o seu armistício, lá do alto do marquês, abrindo-se num imenso cartaz: “Abraço, grátis!”. Ou, tão bom quanto isso, deixando-se embalar ainda, na sua viagem de regresso, na literatura de cordel do camarada Serafim: “Nossa Senhora da Fome/Com seu filho que não come!/ Ele morreu numa cama/ sem alma, nem caixão/vendo o sorriso do Obama.”

Por mais que se desvende e se desnude, por mais que a cimeira apareça em pompa e circunstância, em jeito de festa, em trombetas de propaganda, em sorrisos de madrugada, em cores de alvorada, em espectaculares treinos policiais, só mesmo os versos do velho ferroviário da Pampilhosa para nos revelar quanto ela foi misteriosa e perversa, prevísivel e sanguinária: A democracia some/ na cimeira alfacinha/ rua hospeda fome/ hotel hospeda rainha/ americano tem filé, piscina. . / lisboeta na esquina/ janta café com farinha/”.

Matar gente é tão fácil como esbarrar com um elefante. Difícil é descobrir um poeta que anda, num autocarro, à procura destas moedinhas perdidas: ”Europa, Ásia, Oriente/ escaparam ao “império do mal”/ para morrerem fuzilados/ nas mãos da Nato bestial/ O futuro será de paz/ espero que não demore/ quero criança que cante/ quero velho que não chore/ quero pobre que não peça/ e rico que não explore/ não quero mais violência/ que cada um colabore.”

Serafim, Serafim. . . que, mais adiante, deixaria a nossa viagem comum, despedindo-se em oração: “Pai nosso que estás neste mundo, exaltados sejam o teu nome e a tua integridade, venha a nós o teu poder para que cheio de brigas e radiante estimules a abominação que transborda as chamas e os seus mares, para que consigamos reduzir, com a tua sagrada força justiceira, aquele que assinalamos como inimigo. Pai nosso que nos maltratas e nos repartes a sede, dá-te hoje a nós para que nunca premeies nem perdoes ao vil, ao espúrio ofensor e não permitas que tombemos sob a tentação da misericórdia, nem que esqueçamos cumprir o momento propício da nossa fiel vingança no estrito tempo que possamos viver nesta terra”.

Se Gauguin viajasse na nossa camioneta pintaria uma nova tela com a mesma mensagem que deixou por cima das cores garridas de Tahiti, perguntando de novo, à distância de um século, quem somos, donde vimos e para onde vamos. Nós, os quatro, responderíamos logo: somos o Pinho, o Álvaro, o Tadeu, o Carlitos, viemos de Arouca e a ela voltamos. Vivos – ainda!

Reportagem, 20 de Novembro de 2010

Álvaro Couto – PCP Arouca