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O anti comunismo é intrínseco ao capitalismo. Uma força que se propõe pôr fim à exploração do homem pelo homem, acabar com o poder e os privilégios da classe dominante, não pode contar com a neutralidade do Capital. Não são por isso de surpreender os silenciamentos, as discriminações, as deformações e ataques de que o PCP é alvo constante na comunicação social. Não nos cansaremos de lutar contra tais práticas antidemocráticas, exercendo e exigindo o cumprimento dos direitos que a Constituição consagra.

Mas somos realistas. A luta de classes existe e o contrário é que seria de surpreender. Mas porquê tanto destempero e tanto ódio vomitado contra o PCP a pretexto da opinião expressa em comunicado do Gabinete de Imprensa sobre o significado político da atribuição do Prémio Nobel da Paz a Liu Xiaobo? Porquê tal manobra de diversão e tão sórdida campanha de denegrimento do PCP? A explicação é evidente: pela sua intervenção no plano político e social o PCP é o grande obstáculo à política de direita, a grande força que combate o fatalismo e o conformismo.

Quanto ao motivo invocado para a campanha é bem conhecido que o PCP é um partido de uma só cara e que prefere perder votos dizendo a verdade a ganhá-los escondendo-a. E a verdade é que a atribuição deste Prémio Nobel é realmente «inseparável das pressões económicas e políticas» sobre a República Popular da China, e a opinião do PCP é a de que essa escolha não tem nada de inocente, antes se insere numa escalada de pressões contra este país que, pense-se o que se pensar sobre a sua política interna e externa, está a resolver colossais problemas de desenvolvimento económico, social e cultural e desempenha um papel crescente positivo na cena internacional.

Uma tal escalada, que só não vê quem não quer, não pode deixar de causar grande preocupação, tendo em conta o quadro de crise profunda do capitalismo, de agudização das contradições entre grandes potências, de corrida aos armamentos, de multiplicação de focos de tensão e de guerra. Se realmente se quer a Paz a tarefa é trabalhar para o desarmamento em lugar de reforçar a NATO e outros blocos militares agressivos, efectuar manobras militares nas fronteiras marítimas da China, armar Taiwan, fomentar o separatismo no Tibete e outras regiões deste imenso país multinacional. E é óbvio que não vão no sentido da Paz pressões como as que têm sido exercidas sobre a China para que escancare às multinacionais o seu mercado interno, valorize a sua moeda, aceite normas ambientais que considere incompatíveis com o seu desenvolvimento, limite as suas relações internacionais.

 

A quem realmente lute pela Paz não pode deixar de inquietar o tom cada vez mais arrogante e ameaçador com que o imperialismo se dirige aos países que não se vergam ao seu dictat. E a China não é excepção. Ela seria mesmo responsável por problemas planetários que vão de um esgotamento próximo das reservas de hidrocarbonetos a uma eminente catástrofe climática, ou mesmo pela desindustrialização dos EUA, o seu enorme desemprego, a sua colossal dívida externa. Artigos como «A China como problema»( Vital Moreira, Público, 12.10.10, que cinicamente reconhece as «exigências da UE» e as «pressões dos EUA») ou «O que é necessário exigir de Pequim» (Martin Wolf, Financial Times / Le Monde, 12.10.10) são a este respeito significativos.

É esta a verdade em que a instrumentalização do Nobel se inscreve, verdade que não pode nem deve ser ocultada. Nem subestimada pois encerra grandes perigos para a Paz. É bom que o imperialismo não esqueça que depois de muitos anos de humilhação nacional, o povo chinês fez uma grande revolução libertadora e que não é mais possível o regresso aos tempos em que no jardim principal de Xangai e muitos outros locais havia tabuletas que diziam: «proibida a entrada a cães e a chineses».

in Avante de 21/10/2010