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A oposição venezuelana, se algo merece a todos os títulos, é entrar no famoso – quanto inútil – Livro de Guinness. A sua Mesa de Unidade Democrática (mais de 20 partidos afunilados na MUD, também definida como Mesa de Ultra Direita), depois de obter um total de 65 deputados contra os 98 do movimento bolivariano (aliança do PSUV e PCV), tem o descaramento de dizer que ganhou as eleições, obviando o facto de que tendo 33 deputados menos não pode ganhar nenhuma votação no parlamento e que as forças progressistas, além de terem quórum sozinhas, podem ganhar todas as votações, à excepção daquelas que se refiram a leis orgânicas e designação de altos funcionários.

Comparemos: no parlamento de 2000/2005, (as últimas legislativas, de que a oposição se retirou à última hora para as boicotar) o MVR (ponto de partida do actual PSUV) tinha 92 deputados de um total de 165, tantos quantos os da câmara actual. Isto não impede que se esganicem a gritar que ganharam e que todos os grandes média do planeta afinem pelo mesmo diapasão, o que sai da área do descaramento e entra na de uma loucura perigosa, que os leva mesmo a afirmar que conseguiram 52% dos votos, com o qual pretendem, de novo, levantar dúvidas sobre a transparência do sistema eleitoral venezuelano e do método de Hondt. A verdade é que só têm os tais 52% se somarem aos seus votos todos os dos outros partidos, pequenos todos eles, incluindo os que são abertamente a favor de Hugo Chávez! Por outro lado, desta votação de 26 de Setembro não se pode, em boa lei, fazer extrapolações para calcular futuros resultados numa consulta de tipo presidencial. A única eleição que lhe poderia ser comparada seria a do Parlamento Andino (Parlatino) e nela o PSUV obteve 5 268 939 votos (46,71%) contra 5 077 043 (45,01%) da MUD, o que equivaleu a 6 e 5 deputados, respectivamente.

A oposição está rouca de gritar que ganhou (o que obriga os bolivarianos a perder tempo para demonstrar que não foi assim), mas acredita realmente que venceu? Obviamente que não e obviamente que sabe que é minoritária. Se tivesse um mínimo de certeza de que poderia vencer umas presidenciais neste momento repetiria a aventura de 2004 e aceitaria o repto lançado pelo presidente Hugo Chávez 48 horas depois das eleições para que convocasse um referendo revogatório do seu mandato. Não o vai fazer e vários dos seus figurões, poucos, já negaram essa hipótese.

Mas que outra posição se pode esperar de uma força contra-revolucionária que ainda não deu por terminada a greve patronal de 2002 e ainda não reconheceu que perdeu o revogatório de 2004?

 

Equador: outro golpe que o não foi

 

Quatro mortos e quase trezentos feridos depois (entre eles vários totalmente irrecuperáveis), a direita equatoriana – como sempre apoiada pelos média internacionais – continua a querer convencer o mundo de que aquela sublevação do regimento policial de Quito – e não só – foi por motivos salariais. Não falam do sequestro do presidente Rafael Correa (que se passaria, por exemplo, nos Estados Unidos se a polícia de Washington sequestrasse Barack Obama por reivindicações salariais?), nem dos disparos sobre o carro que o resgatou. Preferem dizer que foi um show e até há quem afirme que ele foi ao regimento não para dialogar mas para provocar aqueles «anjinhos» e que se não saiu antes foi porque não quis. Podem apostar que, se tivesse sido assassinado, sempre haveria algum «analista» pronto para jurar a pés juntos que fora um suicídio e que seria acompanhado por um coro de «jornalistas independentes».

Os acontecimentos de Quito foram um golpe de Estado, falhado mas não totalmente derrotado, como o foi o de Abril de 2002 contra Chávez, sem esquecer as repetidas insurreições ensaiadas contra Evo Morales. A direita reaccionária não está desarmada e voltará à carga (para já um juiz pôs em liberdade condicionada três coronéis acusados de atentar contra Correa) e tem «boas» razões para o fazer. Com Correa no palácio Carondelet, o Equador entrou para a OPEP, modificou os contratos leoninos que submetiam o país aos interesses «sagrados» das petrolíferas e tem o atrevimento de ver com olhos solidários as grandes maiorias nacionais. Essas são políticas inaceitáveis tanto para a reacção local como para o imperialismo, que é, no fundo, quem mexe os cordelinhos criminosos de militares como Lúcio Gutierrez, que ainda abundam na América Latina e são produto da famigerada Escola das Américas.

in Avante de 7/10/2010