Agricultura familiar em Lisboa por melhores políticas

Cerca de mil agricultores, dirigentes agrícolas e amigos do mundo rural manifestaram-se, dia 8 de Novembro, frente à Assembleia da República, em defesa da agricultura familiar, do mundo rural e da soberania alimentar.

Vindos de vários pontos do País, os participantes – respondendo ao apelo da Confederação Nacional da Agricultura (CNA) e das suas filiadas – começaram por concentrar-se no Largo do Rato, onde foram feitas as primeiras intervenções, dando conta dos principais problemas da agricultura familiar, por um lado, e apontando caminhos para a melhoria das condições de vida dos agricultores portugueses, por outro.

Isménio Oliveira, da direcção da CNA, lembrou os incêndios florestais que acorreram em 2017. O distrito de Coimbra foi o mais afectado com 113 mil hectares ardidos (no País arderam 440 mil hectares de floresta e povoamentos). «O desastre dos incêndios têm sido esquecido pelo Ministério da Agricultura», afirmou o também dirigente da Associação Distrital dos Agricultores de Coimbra (ADACO), acusando o ministro da tutela, Capoulas Santos, de não acertar nos «milhões» prometidos, que não chegaram a milhares de pessoas (entre três a cinco mil agricultores) por «questões burocráticas».

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Quatro dias de silêncio

A intensidade da agenda do PCP, não só mas também com iniciativas com a presença do Secretário-geral, é assinalável. Na última semana, terá sido o único partido que realizou quatro dessas iniciativas em quatro dias consecutivos. Vejamos o saldo mediático.

Na quinta-feira, 8, Jerónimo de Sousa esteve numa sessão de esclarecimento sobre o Orçamento do Estado, com uma sala cheia na Baixa da Banheira. Na sexta-feira, numa sessão dedicada à valorização do trabalho e dos trabalhadores, na Covilhã. No sábado, dia 10, numa iniciativa sobre Álvaro Cunhal e o legado de Marx, em Coimbra. No domingo, 11, numa sessão sobre os direitos da juventude, assinalando o aniversário da JCP, em Lisboa.

Nos jornais, tudo se resume a três pequenas caixas em dois jornais: uma com comentários sobre posicionamentos do PS e outras duas com referências ao papel do PCP na solução política. Nas televisões, em sinal aberto, temos registo também de três peças. De Coimbra, o resumo da iniciativa feito nos principais noticiários da RTP e da TVI resumiu-se à resposta a questões sobre os últimos episódios do caso em que o Secretário-geral do PSD se envolveu. Na SIC, estes quatro dias intensos não deram mais do que uns poucos segundos da sessão da Baixa da Banheira, enfiados numa peça em que entravam outros protagonistas, assinalando os três anos da queda do anterior governo do PSD e do CDS, e da actual solução política que se lhe seguiu.

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Capacidade orçamental da zona euro – Miguel Viegas

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Miguel Viegas – Eurodeputado do PCP

Está neste momento em discussão a proposta da Comissão Europeia de criação de uma capacidade orçamental da zona euro, alegadamente destinada a combater os choques assimétricos. Apresentada como a cereja que falta no topo da União Económica e Monetária (UEM), esta proposta representa, como iremos ver, mais uma peça do euro e da governação económica que irá cercear ainda mais a política orçamental dos estados membros.

Há muito que o carácter incompleto da integração europeia e, em particular, do euro foi escolhido como premissa central para justificar os fracassos da União Europeia e induzir a necessidade de reformas. Assim, o Relatório dos Cinco Presidentes intitulado «Concluir a União Económica e Monetária Europeia», de 22 de Junho de 2015, e o documento de reflexão da Comissão sobre o aprofundamento da União Económica e Monetária, de 31 de Maio de 2017, apontam ambos, entre outras medidas, para a criação de uma capacidade orçamental da zona euro visando «ajudar» os Estados-membros em crise e presos na «armadilha do euro» que os obriga a cortar na despesa pública agregada quando deviam fazer precisamente o contrário. Três palavras-chave ajudam-nos a entender melhor o verdadeiro alcance desta «ajuda».

Elegibilidade: o apoio deste instrumento depende do «cumprimento pelo Estado-membro envolvido de rigorosos critérios de elegibilidade, baseados no cumprimento das decisões e recomendações no âmbito do quadro de supervisão orçamental e macroeconómica». Ou seja, isto é só para alunos bem comportados que respeitam todas as ordens superiores da Comissão Europeia e dos seus eurocratas.

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Joseph Stiglitz: “Aumentar o salário mínimo não prejudica o emprego”

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Joseph Stiglitz

O Nobel da Economia em 2001 e assessor do ex-presidente Bill Clinton, defende que o aumento do salário mínimo tem um impacto “insignificante ou até mesmo positivo” no emprego.

O economista esteve esta semana e Madrid, para uma conferência organizada pela Mastercard e não evitou um dos temas da agenda política espanhola: a impressionante subida de 22% do salário mínimo. E aplaudiu a medida de aumentar em 165 euros o salário mínimo espanhol.

Em 2019, o valor mensal em Espanha passa para 900 euros (600 em Portugal), multiplicado por 14 meses. A actualização de 20 euros em Portugal foi bem mais modesta:3,4%.

“Os dados são impressionantes. Aumentar o salário mínimo não prejudica o emprego”, diz Stliglitz citado pelo El País, justificando a sua opinião com “centenas de estudos” realizados nos Estados Unidos.

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PCP apresenta conjunto de propostas referentes à administração local

O PCP apresentou a 13 de Novembro, um conjunto de propostas de alteração ao Orçamento do Estado para 2019 referentes à administração local. 

As propostas vão no sentido da recuperação da autonomia do poder local, da eliminação e/ou minimização de constrangimentos para a realização de investimento público, do reforço da contratação de trabalhadores e da introdução de normas que criam um quadro de procedimentos que facilitam, sem perder rigor e transparência, a gestão autárquica, permitindo assim melhorar as condições de vida das populações e potenciar o desenvolvimento local.

Das propostas apresentadas destacam-se as seguintes: no respeito da autonomia do poder local dispensa-se a autorização dos membros do Governo em decisões de gestão de trabalhadores e recursos, bastando a autorização dos respectivos órgãos autárquicos; a contratação de trabalhadores pelas entidades públicos gestoras do abastecimento público de água, saneamento de águas residuais urbanas e de resíduos urbanos; alarga-se a possibilidade de utilização de todo o saldo de gerência antes da aprovação do documento de prestação de contas; facilita-se o recurso à linha de financiamento disponibilizadas pelo BEI para financiar a comparticipação nacional de projectos aprovados no âmbito dos fundos europeus estruturais e de investimento; exclui-se do cálculo da amortização média dos empréstimos de médio e longo prazo os empréstimos excepcionados para o cálculo da dívida total; excepciona-se para o cálculo do limite de endividamento os empréstimos ao financiamento de projectos no âmbito do Plano Estratégico para os Resíduos (PERSU 2020) e do Plano Estratégico de Abastecimento de águas e Saneamento de Águas Residuais (PENSAAR) e possibilita-se que os acordos de regularização de dívidas às entidades gestoras de sistemas multimunicipais de águas sejam alargados a sistemas intermunicipais e ao sector de resíduos urbanos.

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Mais salário, menos exploração – Tiago Cunha

A política de recuperação de rendimentos e a reposição e conquista de direitos possibilitaram, não só uma redução da pobreza, como uma inversão na parte da riqueza que vai para quem trabalha e trabalhou.

Travou-se a tendência de apropriação crescente da riqueza por parte do capital, mas ainda assim, a percentagem das remunerações no Produto Interno Bruto (PIB) está longe da verificada no início da crise estrutural de 2007, ao mesmo tempo que esta subida está mais influenciada pelo aumento do emprego, que por via de uma subida generalizada dos salários.

Numa altura em que o governo minoritário do PS se prepara para apresentar a sua proposta de Salário Mínimo Nacional (SMN) para 2019, surgem os «avisos» do patronato (que há uns meses indiciava que ia surpreender com um valor acima dos 600€ 1, sol de pouca dura 2) e de um sem número de economistas rendidos aos encantamentos do capital, nada preocupados com as dificuldades económicas que são vividas por milhares de famílias, mas muito preocupados com os «perigos» que uma subida do SMN pode causar. Uns enfatizam mesmo, não escondendo o insulto, que «subir o salário mínimo vai ser mau para os pobres» 3. Sempre que há uma perspectiva de aumento dos salários, nomeadamente do SMN, lá vem o coro dos que vivem à custa da exploração do trabalho e que não olham a meios para intensificar a acumulação de capital.

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Quem semeia ventos colhe tempestades – Francisco Gonçalves

D. Quixote com alucinações

O debate público, político no seu sentido mais lato, tem vindo, pouco a pouco, a transformar-se em conversa de café. A comunicação faroleira, o registo agressivo, o recurso ao insulto, à sentença instantânea, a crença em soluções simples para problemas complexos ganharam adeptos. A má educação e a boçalidade tomaram conta do espaço público.

Ao mesmo tempo que se reclama da política e do político carroceiro que disputa e vai chegando às Chancelarias, o indivíduo e a portentosa sociedade civil dão exemplo … fazendo o mesmo no espaço público (nas antenas abertas, no comentário ao noticiado, nas redes sociais, na blogosfera). A santa trindade da conversa da treta (fanfarronice, superficialidade e vulgaridade) instalou-se.

A fanfarronice lembra o camiliano tenente-coronel Cerveira Lobo, cuja coragem subia à medida que esvaziava a garrafa de genebra. Quando a coragem atingia o climax, sempre que chegava ao fundo da garrafa, saía a cavalo, bramindo espada, campos fora, qual Quixote, matando “Malhados” imaginários, a “Brigada Vermelha” desses tempos miguelistas.

A superficialidade é marca deste tempo. A rapidez, as tecnologias da informação e comunicação, a multiplicidade de estímulos visuais dominam o quotidiano. Comportam potencialidades mas, também, perigos. Não é possível em matérias complexas, e as relações sociais são complexas, fazer análises rápidas em frase bombástica. Não há  inovação que permita meter num MEME “A República” de Platão.

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Afinal balança – Anabela Fino

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«Sou contrário às tendências de Bolsonaro, mas tenho que torcer pelo Brasil. Tenho que torcer para que ele acerte e não para que erre». Esta declaração de Fernando Henrique Cardoso (FHC) em entrevista à RTP3, na semana passada, bastaria para definir o posicionamento político do ex-presidente eleito pelo PSDB, sociólogo, cientista, professor universitário, tido como democrata, face a um presidente eleito que se assume como admirador da ditadura, racista, homofóbico, xenófobo, machista. Um presidente que se apresenta como «restaurador da ordem», com um discurso que apela aos princípios mais retrógrados da tenebrosa triologia Deus, Pátria e Família. Um presidente calorosamente saudado por Trump e Netanyahu e que logo anunciou a transferência da embaixada brasileira em Israel para Jerusalém.

Mas FHC não se ficou por aqui. Assumindo que entre Fernando Haddad, o candidato do PT, e Bolsonaro o seu coração «não balança», que é uma forma de dizer que não vê diferença entre um democrata e um fascista, HFC foi mais longe ao dizer que o que mais teme é que Bolsonaro não seja capaz de retirar o Brasil da crise económica em que se encontra, já que não acredita que a democracia esteja ameaçada. É uma questão de fé… ou a esperança encapotada num novo «milagre económico» como o produzido nos «anos de chumbo» da ditadura, o tal que provocou uma concentração da riqueza geradora de profundas desigualdades sociais que se mantêm até hoje e que terminou no crash de 1971. A recessão económica que se seguiu, como FHC tem obrigação de saber, durou até à última década do século passado, e nem as maiores e escandalosas privatizações da história do Brasil levadas a cabo justamente pelos governos de Fernando Henrique Cardoso contiveram o aumento brutal da dívida pública.

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A surpresa de Cavaco – Manuel Rodrigues

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Em recente entrevista à TSF, Cavaco Silva disse ter ficado surpreendido pela facilidade com que o PCP se «curvou» perante as imposições ditadas ao País pelo Ministro das Finanças, acrescentando que não esperava que o PCP se «curvasse» com tanta facilidade às exigências de redução do défice.

Ora, sabendo nós que os governos do PSD que tiveram Cavaco Silva como primeiro-ministro e o governo do PSD/CDS que contou com o seu apadrinhamento como Presidente da República foram campeões no corte de direitos, no abate de serviços e na privatização de empresas e sectores com dramáticas consequências para o povo português, não ficamos espantados com tão descarada e hipócrita afirmação.

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Manuel Loff: “O cavaquismo foi uma recuperação de muitos dos valores do salazarismo”

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Um dos autores do livro “Espectro dos Populismos – Ensaios Políticos e Historiográficos”, editado recentemente pela Tinta-da-china, Manuel Loff dedica-se a estudar o fascismo do século XX. Historiador e professor universitário, alerta que nos dias que correm o fascismo não avança sob as mesmas vestes de outrora, usando antigas narrativas mas diferentes instrumentos. “O fascismo do século XXI evita o golpe militar, a ruptura da ordem constitucional, opta pela transição autoritária”.


No livro os autores recusam sempre a existência de um populismo, afirmando existirem vários, mas quais são as diferenças?

O populismo é muito mal usado, muito mal aplicado. E com a mesma falta de rigor como se usa ‘terrorismo’ ou ‘totalitarismo’. Nele pode caber de tudo e tem-se popularizado a ideia de que existe um populismo de esquerda e outro de direita. À escala europeia, discordo da ideia dos dois populismos. Entendo que, no passado, o conceito foi concebido, desenhado e aplicado com rigor e de forma correta a fenómenos que são considerados populismos de esquerda e que têm uma relativa unidade entre si, como o varguismo no Brasil depois da ditadura de 1945; o peronismo na Argentina; no final dos anos 60, o regime de Velasco Alvarado no Peru. Na Europa, de toda a época contemporânea, a ideia de um populismo de esquerda parece-me inaplicável. O populismo emerge sempre à direita, entre aqueles que recusam a distinção esquerda/direita, que evitam posicionar-se no ponto de vista da discussão entre a prioridade dada pela igualdade social ou à da liberdade económica. A realidade europeia diz-nos isto. Um dos líderes políticos mais tipicamente populistas da direita foi Cavaco Silva com toda a sua retórica do antipolítico, da desconfiança dos intelectuais e promoção da ideia de uma liderança forte que quer trabalhar contra os entraves do regime democrático do Estado de Direito.

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Do Armistício e do 7 de Novembro – Manuel Gouveia

Que dizer, um ano depois do centenário, que não tenha sido já dito e redito? Provavelmente, pouca coisa. Mas é impossível fugir à pura necessidade de a cada ano recordar o maior acontecimento da história, e de sublinhar a sua actualidade, a sua importância na luta que travamos todos os dias.

Vivemos no ocaso capitalista, num tempo onde o desespero de uma classe dominante incapaz de continuar a dominar como dantes faz renascer das trevas todas as bestas e todos os medos.

É neste quadro que a burguesia comemora o armistício de 1918 com tanta pompa e circunstância, tratando de esconder a verdadeira faceta da guerra de 14/18: a brutal carnificina em que o capitalismo mergulhou a Europa, com dezenas de milhões de proletários e camponeses enterrados vivos nas trincheiras, a gasearem-se uns aos outros, a matarem-se uns aos outros, para decidir quem – se os imperialistas alemães, se os imperialistas ingleses ou franceses – iriam explorar um conjunto de colónias e de mercados.

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101 anos depois: a luta continua

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A Revolução de Outubro, cujo aniversário hoje se assinala, marcou o século XX e a luta dos trabalhadores e dos povos, concretizando a aspiração secular do homem – a sua libertação social e humana.

Novo Planeta, Konstantin Yuon, 1921

Após as experiências como a Comuna de Paris, onde durante 72 dias a bandeira vermelha da classe operária flutuou hasteada no município de Paris num primeiro exercício do poder pelo proletariado, a que se seguiu a Revolução russa de 1905, a primeira grande revolução popular com a intervenção organizada da classe operária e dos trabalhadores, surgiu a Revolução de Fevereiro de 1917, que marcou o fim do poder czarista na Rússia.

Mas o século XX viria a ficar marcado pela Revolução de Outubro, cujo 101.º aniversário hoje se assinala, pelo poder político dos trabalhadores e pela construção duradoura de uma sociedade sem exploradores nem explorados, concretizando a aspiração secular do homem – a sua libertação social e humana. É o tempo em que o sonho e a utopia dão lugar a um projecto político e de transformação social, no sentido da eliminação de todas as formas de exploração e opressão.

De uma Rússia semi-feudal, dominada pelo poder repressivo dos czares e da mais alta nobreza, e fustigada pela exploração, a repressão, a pobreza, a fome e o analfabetismo, nascia a 7 de Novembro de 1917 a Revolução de Outubro, com o proletariado russo, liderado pelo Partido Bolchevique, a liderar o seu destino.

Era o princípio da construção de uma nova sociedade onde, a par de grandes dificuldades e obstáculos, se deram avanços históricos, nomeadamente ao nível dos direitos dos trabalhadores e dos povos em geral. Passaram a ser assegurados os direitos à habitação e ao ensino, com instrução geral e politécnica gratuita e obrigatória até aos 16 anos. Conquistaram-se direitos à jornada de trabalho de oito horas de trabalho e a férias pagas, mas também à assistência médica e a um sistema de segurança social universal e gratuitos.

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Eu proponho o Chuck Norris! – Francisco Gonçalves

Faixa da Manifestação contra a Corrupção em frente à Assembleia da República, Outono de 2018

Abriu a época da caça ao herói que precisamos. Assume-se, aqui e acolá, que faltam lideranças,  sebastiões, salvadores pátrios. Estrelas mediáticas são promovidas a heróis imaginários, há uma fé inabalável na sua capacidade de resolver os problemas do mundo. Ideia juvenil, tão só, sinal da demissão (individual e colectiva) dos humanos na procura de soluções  para os problemas do seu tempo. Tal como a economia de mercado deu lugar à sociedade de mercado o consumidor tomou o lugar do cidadão. A prática parece estar a dar razão à ideia avançada, em 1944, pelo filósofo húngaro Karl Polanyi, de que a economia de mercado auto-regulada tende a transformar-se de meio em fim.

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A besta, da Ucrânia ao Brasil – Adriano Miranda

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Todos devemos uma vénia. Aos homens e às mulheres que fizeram o mundo um pouco melhor. Que nos fizeram acreditar na liberdade. Na democracia. Que nos devolveram a vida.

As marcas estão lá e Maria não gosta de se ver ao espelho. Nua, olha o corpo que já foi perfeito. Perfeito até ao dia em que foi espancada, violada. Por dias e noites. Homens com riso de hiena e grunhir de rinoceronte, vestidos de fato e gravata, faziam de Maria uma diversão. Maria não falou. Maria não fala. Olha-se ao espelho e vem à memória a vida feliz que teve. Com as marcas na sua maior intimidade, Maria, ainda assim, acha que teve uma vida feliz. Maria não teve uma vida em vão. Maria teve objectivos. Maria viveu com o coração. Maria viveu para os outros. Os outros, os esfarrapados, os rejeitados, os outros, homens e mulheres à procura da dignidade. Maria não fala. Olha-se ao espelho. As marcas estão lá, gravadas a ponta de cigarro. Gravadas a lâmina. Maria passa as mãos pelas cicatrizes e ri baixinho. Valeu a pena enfrentar as bestas. As pobres bestas. Cheiravam a merda. O cheiro vinha da boca. E Maria ri baixinho. Valeu a pena. 

Vestiam de preto como se andassem sempre de funeral em funeral. Gostavam de ofender. Tinham orgasmos ao fazer sofrer. Humilhavam. Mentiam. Torturavam. Eram lacaios e bufos. Traiçoeiros. Rastejantes. Ignorantes. Estendiam o braço em adoração. Comungavam. Faziam faustosos banquetes. Orgias de criminosos. Conspiravam e assassinavam. Depois rezavam. Fomentavam o ódio e a miséria. Cheiravam a sangue. Saqueavam e enriqueciam. Exploravam e prendiam. Faziam guerras para encher os cofres. Obrigavam as crianças a trabalhar. Violavam as mulheres. Chibatavam os negros. E pançudos, fornicavam até salivarem, fazendo dos outros os seus escravos. Quis a força da razão que fossem derrotados. Desapareceram ou aparentemente desapareceram. Uns esconderam-se e outros mascararam o discurso. 

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Bolsonaro e os seus mandantes – Albano Nunes

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O candidato da extrema-direita venceu as eleições brasileiras. As expectativas de uma «virada», que a dinâmica em crescendo nos últimos dias da campanha democrática autorizava, não se confirmaram apesar do expressivo resultado alcançado pala candidatura de Fernando Haddad-Manuela d`Avila. O processo golpista desencadeado dois anos atrás com a destituição da legítima Presidente da República, Dilma Roussef, e a prisão arbitrária de Lula da Silva para impedir uma candidatura popular que cortaria caminho aos projectos da reacção, deu um novo e grande passo em frente. O perigo de uma ditadura fascista é real. Como afirma o Partido Comunista do Brasil, «foi eleito um presidente da República declaradamente determinado a instaurar um governo de conteúdo ditatorial, para implementar, a ferro e fogo, um programa ultraliberal e neocolonial». A solidariedade com a luta das forças democráticas e progressistas brasileiras para derrotar um tal projecto é mais necessária do que nunca.

Entretanto, a comunicação social, que diabolizou as presidências do PT e favoreceu descaradamente a vitória de Bolsonaro sem poder esconder as suas boçais diatribes, aparece agora a disfarçar e a desculpar o seu comportamento trauliteiro e a minimizar a ameaça fascista. O discurso lido por Bolsonaro na noite das eleições, no quadro de uma encenação que até uma cerimónia religiosa envolveu – confirmando a vergonhosa instrumentalização dos sentimentos religiosos do povo brasileiro – está construído precisamente com esse objectivo. Ao proclamar que o seu «governo será defensor da Constituição, da democracia e da liberdade» e acrescentando um conjunto de promessas em aberta contradição com as provocações e ameaças que multiplicou ao longo da campanha eleitoral, o seu objectivo é, por um lado, abrir espaço de manobra junto de sectores da direita e do patronato que, partilhando embora os mesmos objectivos, querem preservar uma fachada «democrática» e, por outro lado, desarmar a vigilância e procurar desmobilizar a resistência das forças democráticas e progressistas. Impõe-se alertar para tais manobras.

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«Este orçamento consagra propostas de valorização de carreiras porque o PCP se bateu por isso»

Durante a discussão na generalidade do Orçamento do Estado 2019, Rita Rato afirmou que “sabemos que quem praticou o retrocesso nunca apoiará o progresso mas quem defende o progresso e de forma intransigente o emprego com direitos estará sempre na linha da frente dessa batalha”.

 

Minimal Ensaio Sobre a Cegueira – Álvaro Couto

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(a José Saramago)

 

CEGO, lendo teu ensaio nobel,
vi entretanto, que nada de novel,
vivo ou morto, me pode ajudar
e que nada, de novo, posso esperar,
pois, entre mortos e vivos, não se ama ninguém,
já que em sombras todos calaram sua voz,
ou se afastaram, de vez, de nós.
Raízes de corpos, que uma vez nos viveram,
e que, em silêncio, se fizeram entretanto esfumar.

Porém, nesse mesmo teu texto,
passado entre caixões e suas tábuas,
que nos enche de abulia até ao desprezo,
convertendo-nos ao frio das estátuas,
fechados em ruídos, entre paredes azedas de tristeza,
condenados que estamos, sós e ignorados, à incerteza,
ante o vazio da vertigem que nos seca,
ou o pouco sangue que nos interroga,
sempre existe tua VOZ que , aqui e agora,
ainda assim permanece furiosa.

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Comunicado do Comité Central do PCP

O Comité Central do PCP, reunido a 28 de Outubro de 2018, debateu aspectos da situação internacional e da União Europeia, apreciou a situação política, económica e social nacional, o desenvolvimento da luta de massas e definiu linhas de trabalho e orientações para a intervenção e reforço do Partido.

I – Alternativa patriótica e de esquerda, por um Portugal com Futuro

A evolução no plano internacional e nacional exige a afirmação de um caminho verdadeiramente alternativo que continua adiado pelas opções do Governo minoritário do PS que, em convergência com o PSD e o CDS-PP, insiste nos eixos estruturantes de uma política contrária aos interesses nacionais.

A nova fase da vida política nacional, apesar das contradições que a caracterizam, confirma que o País não está condenado ao caminho da liquidação de direitos e do agravamento das condições de vida. Confirma-se que a reposição e conquista de direitos é um factor de melhoria das condições de vida das populações e de dinamização da actividade económica.

O PCP prosseguirá a sua intervenção, não desperdiçando nenhuma oportunidade para conseguir novos avanços. A luta pela concretização de uma política patriótica e de esquerda e de um governo que a realize é a questão central e decisiva para elevar as condições de vida dos trabalhadores e do povo português e dar resposta aos problemas nacionais.

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Pai Nosso – Álvaro Couto

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Pai nosso, que és brasileiro,
exaltados sejam o teu nome e a tua nação,
venha a nós o teu poder e a tua alienação,
e cheio de ódio estimules a abominação que transborda neste teu capitão,
para que consigamos aniquilar, com a tua sagrada violência justiceira,
aquelas mulheres e homossexuais, aqueles pretos, mestiços e vermelhos,
que assinalamos como inimigo.

Pai nosso, que estás acima de todos,
dá-te hoje a nós, abençoando este Brasil que está acima de tudo,
para que nunca mais se premeie,
nem se perdoe aos pobres e desgraçados deste mundo
e aos seus espúrios marginais, e tão pouco permitas
que tombemos sob a tentação da misericórdia,
nem que esqueçamos cumprir no momento propício,
mesmo através da nossa visão misógina,
a fiel vingança do teu diabólico desígnio.

Ámen!

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